Médico Sem Franteiras
Ana Letícia Barauna, advogada, conta sua primeira experiência com MSF em Burkina Faso
  PARTE 4 - 13 de setembro, Ouagadougou, Burkina Faso
 

 

 


Sempre que possível, costumo acompanhar minha amiga Maria nas chamadas “sorties de nuit” ("saídas noturnas" em francês) do Projeto FDR (que trabalha com prostituição feminina). É uma forma de conhecer um pouco do outro projeto, pois, ainda que ambos (os projetos) estejam bastante ligados, a rotina de trabalho às vezes nos distancia. Estas saídas acontecem normalmente duas noites por semana, com um carro MSF com psicóloga ou assistente social, beneficiárias do projeto e alguém mais interessado (como eu) que parte em busca das meninas nos locais de prostituição.O intuito é entregar preservativos e convidá-las a participar das atividades do Projeto. Que fique claro que a idéia não é “salvá-las” da rua, mas mostrar como podem se proteger, que outras oportunidades podem ter, aconselhar em momentos difíceis (como violência física, maus tratos, envolvimento com drogas, prisões ilegais), fazer os partos daquelas que estão grávidas... Enfim, providenciar o apoio necessário às meninas, que estão por todos os lados. Uma das atividades que também tive a oportunidade de presenciar é o chamado “teatro de sensibilização”, noite memorável em um dos bairros mais pobres e violentos de Ouagadougou, com uma platéia de quase 150 espectadores, assistindo a um peça realizada por um grupo de teatro local. Falada em “moré”, a segunda língua dominante no país após a oficial que é o francês, a peça é sobre situações que ilustram a realidade das meninas que trabalham nas ruas.

E, ao acompanhar estas atividades do outro projeto, comecei a perceber o quanto tenho aprendido com a força também de algumas expatriadas como Maria Samuel (“gaja porreira”, como ela mesmo diz com seu lindo sotaque português do Porto, que já está em sua terceira missão na África - Burundi, Chade e Burkina), que corre de um lado para o outro, que chora e ri, que enfrenta as situações mais difíceis que alguém pode imaginar (como carregar o corpo de um bebê morto até encontrar um necrotério aberto para que ele passasse a noite: situação indescritível em sua essência), que como uma heroína conduz o projeto para seu fechamento no próximo mês, trabalhando noite e dia para que todo o trabalho aqui realizado por MSF não se perca nos próximos anos. E eu diria, parafraseando a oração que qualquer um conhece, mesmo para aqueles que não tem fé ou religião: “Ave Maria cheia de graça, bendita sois vós entre (nós) mulheres”… do mundo humanitário.

E do terreno para o escritório, sigo citando as fontes de inspiração feminina na missão. Desde que aqui cheguei, meu apoio (e que apoio!) técnico administrativo/financeiro “carrega e defende” a missão como uma leoa. Mais de 20 anos de MSF, do Líbano a Burkina Faso, passando pelos quatro cantos do mundo, três incríveis filhos adolescentes, assim descrevo, longe de ser exaustiva, Charlotte Bohot. Meio belga, meio italiana (quando “o bicho pega” ela não nega a origem latina…), esta incrível mulher me fez mergulhar em terras africanas sem perder nem a força, nem a doçura e me mostrou que é possível ser mulher, mãe e trabalhar no mundo humanitário ao mesmo tempo. Como? Respondo que “toda mulher é mesmo meio Leila Diniz”, basta descobrir e acreditar que é possível defender as causas mais impossíveis com toda a graça e feminilidade que só uma grande mulher sabe ter.

Leia a terceira parte do diário de bordo

 

Por: Ana Letícia Barauna