| |
Sempre que possível, costumo acompanhar minha amiga Maria
nas chamadas “sorties de nuit” ("saídas
noturnas" em francês) do Projeto FDR (que trabalha com
prostituição feminina). É uma forma de conhecer
um pouco do outro projeto, pois, ainda que ambos (os projetos) estejam
bastante ligados, a rotina de trabalho às vezes nos distancia.
Estas saídas acontecem normalmente duas noites por semana,
com um carro MSF com psicóloga ou assistente social, beneficiárias
do projeto e alguém mais interessado (como eu) que parte
em busca das meninas nos locais de prostituição.O
intuito é entregar preservativos e convidá-las a participar
das atividades do Projeto. Que fique claro que a idéia não
é “salvá-las” da rua, mas mostrar como
podem se proteger, que outras oportunidades podem ter, aconselhar
em momentos difíceis (como violência física,
maus tratos, envolvimento com drogas, prisões ilegais), fazer
os partos daquelas que estão grávidas... Enfim, providenciar
o apoio necessário às meninas, que estão por
todos os lados. Uma das atividades que também tive a oportunidade
de presenciar é o chamado “teatro de sensibilização”,
noite memorável em um dos bairros mais pobres e violentos
de Ouagadougou, com uma platéia de quase 150 espectadores,
assistindo a um peça realizada por um grupo de teatro local.
Falada em “moré”, a segunda língua dominante
no país após a oficial que é o francês,
a peça é sobre situações que ilustram
a realidade das meninas que trabalham nas ruas.
E, ao acompanhar estas atividades do outro projeto, comecei a perceber
o quanto tenho aprendido com a força também de algumas
expatriadas como Maria Samuel (“gaja porreira”, como
ela mesmo diz com seu lindo sotaque português do Porto, que
já está em sua terceira missão na África
- Burundi, Chade e Burkina), que corre de um lado para o outro,
que chora e ri, que enfrenta as situações mais difíceis
que alguém pode imaginar (como carregar o corpo de um bebê
morto até encontrar um necrotério aberto para que
ele passasse a noite: situação indescritível
em sua essência), que como uma heroína conduz o projeto
para seu fechamento no próximo mês, trabalhando noite
e dia para que todo o trabalho aqui realizado por MSF não
se perca nos próximos anos. E eu diria, parafraseando a oração
que qualquer um conhece, mesmo para aqueles que não tem fé
ou religião: “Ave Maria cheia de graça, bendita
sois vós entre (nós) mulheres”… do mundo
humanitário.
E do
terreno para o escritório, sigo citando as fontes de inspiração
feminina na missão. Desde que aqui cheguei, meu apoio (e
que apoio!) técnico administrativo/financeiro “carrega
e defende” a missão como uma leoa. Mais de 20 anos
de MSF, do Líbano a Burkina Faso, passando pelos quatro cantos
do mundo, três incríveis filhos adolescentes, assim
descrevo, longe de ser exaustiva, Charlotte Bohot. Meio belga, meio
italiana (quando “o bicho pega” ela não nega
a origem latina…), esta incrível mulher me fez mergulhar
em terras africanas sem perder nem a força, nem a doçura
e me mostrou que é possível ser mulher, mãe
e trabalhar no mundo humanitário ao mesmo tempo. Como? Respondo
que “toda mulher é mesmo meio Leila Diniz”, basta
descobrir e acreditar que é possível defender as causas
mais impossíveis com toda a graça e feminilidade que
só uma grande mulher sabe ter.
Leia
a terceira parte do diário de bordo
|