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MSF NA MÍDIA

15/1/2004
Haiti: 200 anos à espera de melhores dias

Haiti: 200 anos à espera de melhores dias

País com 80% da população na pobreza vive rebelião contra o presidente no ano do bicentenário de independência

“Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!”

Enquanto os versos da “Marselhesa” ecoavam nas ruas da França de Danton e Robespierre, do outro lado do Atlântico os escravos negros de uma pequena colônia francesa tomavam ao pé da letra os versos revolucionários e formaram batalhões para lutar, eles também, por liberdade, igualdade e fraternidade. Duzentos anos depois de se tornar — em 1º de janeiro de 1804 — a primeira nação independente de ex-escravos do mundo, o Haiti ostenta hoje o triste título de país mais pobre do Hemisfério Ocidental. Há duas semanas, a nação de oito milhões de habitantes se vê mergulhada numa rebelião aberta contra um dos poucos presidentes que a democracia produziu em dois séculos, com um rastro de quase 50 mortos.

A revolta contra o presidente Jean-Bertrand Aristide começou no norte, onde no início do mês os rebeldes da Frente de Resistência Revolucionária de Artibonite tomaram a cidade de Gonaives, a quarta maior do país. Logo a rebelião se espalhou para uma dúzia de cidades e localidades vizinhas.

Haiti já teve 32 golpes de Estado em 200 anos

No entanto, o ex-padre católico eleito em 1990, deposto, e novamente eleito em 2000, ainda conta com apoio popular, apesar da profunda crise social e econômica e das acusações de corrupção, violação de direitos humanos e fraude eleitoral que assolam seu governo. E, embora parte dos intelectuais haitianos esteja contra o presidente, ele ainda é respaldado por muitos acadêmicos, cansados dos sobressaltos de uma História que enumera 32 golpes de Estado em 200 anos.

— Apesar de tudo o que se diz, ele foi eleito e tem um mandato. Se Aristide fez algo errado, há outras medidas a tomar, não forçar a sua renúncia — disse ao GLOBO, de Porto Príncipe, a antropóloga e professora de história Yoketa Bossée, da Universidade das Caraíbas.

Sem Exército e com uma Polícia Nacional reduzida a cinco mil membros, Aristide necessita do apoio de simpatizantes, muitos deles organizados em gangues armadas, para sobreviver. Os EUA também o apóiam, mas pressionam por reformas.

A situação do Haiti beira o caos, agravando as dificuldades atravessadas por um país que foi uma das colônias mais prósperas da América e hoje amarga índices africanos de subdesenvolvimento. A renda per capita anual, em queda há duas décadas, é de US$ 460 (a do Brasil é de US$ 3.500) e 80% da população vivem na pobreza.

— O país tem indicadores sócio-econômicos catastróficos, bem abaixo do resto do continente. A mortalidade materna aqui é próxima à do Afeganistão — relata Catherine Hamel, coordenadora médica no Haiti da ONG Médicos Sem Fronteiras.

Ela reclama que os esforços de ajuda são dificultados pela violência, que inclui o desrespeito à neutralidade dos centros de saúde, invadidos por soldados dos dois lados em busca de adversários.

Estudioso vê origem de problemas na independência

A explicação para tal estado de penúria vem de longe — segundo estudiosos, dos tempos da independência. O diretor do Programa de América Latina e Caribe do Rollins College, Pedro Pequeño, crê que o próprio processo de libertação nacional semeou as desgraças que afligem o Haiti até hoje.

— A revolução haitiana foi muito sangrenta e confusa. Eles temiam que os colonizadores voltassem um dia para atacá-los e praticamente demoliram o país — explica ele, da Flórida. — Depois disso, só tiveram ditadores corruptos, sem qualquer compromisso com o povo, e nunca conseguiu desenvolver estruturas políticas sólidas.

A situação parece ter-se tornado um círculo vicioso: sem instituições fortes, nada de democracia; sem democracia, nada de desenvolvimento.

— Eles estão contra a parede. Espero que haja soluções, mas não as vejo. O Haiti está assim há 200 anos — lamenta o professor Pequeño.

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