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MSF NA MÍDIA

27/12/2005
A mão habilidosa de um brasileiro

Alexandre Charão é um médico sem fronteiras. Quando o mar invadiu a costa do sul da Ásia, há um ano, ele amenizava o sofrimento das vítimas da guerra civil na Costa do Marfim, na África. Cirurgião geral, o carioca de 32 anos, filho de gaúchos, sabia que suas habilidades seriam requeridas na megaoperação humanitária armada para socorrer os sobreviventes.

Depois de uma passagem pela Libéria, onde auxiliou as vítimas de outra catástrofe humana, um dos sete brasileiros que fazem parte da ONG internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) desembarcou em setembro na Indonésia para sua estréia em um desastre natural. Chocou-se já na chegada, apesar dos nove meses decorridos desde a tragédia.

- Toda catástrofe é terrível. A diferença é que as provocadas pelo homem matam milhares em anos. E as naturais matam os mesmos milhares em minutos - compara.

A estrada que o levou à vila de pescadores de Lamno, onde viveria pelo mês seguinte, era um amontoado de árvores caídas e grandes quadrados de cimento no solo:

- Primeiro, você não entende. Para que esse bando de quadrados? Mas logo percebe. Eram os pisos das casas, varridas com teto e tudo pelo oceano.

Barcos encalhados a quilômetros do mar, entulhos de madeira e plantações arrasadas continuavam ali, como se as ondas tivessem passado um dia antes. E contrastavam com o trabalho frenético de dezenas de organizações humanitárias:

- A reconstrução vai levar anos. O ritmo de trabalho já está no máximo, não tem como aumentar.

Enquanto esteve lá, Charão realizou uma cirurgia por dia, em média. Poucas, se comparadas com a rotina intensa de socorro aos feridos nos dias seguintes à tragédia. Mas valiosas para quem não teve de enfrentar estradas destruídas em busca de um hospital para dar à luz ou operar o apêndice.

Desse tempo lá, o brasileiro guarda como principal recordação o rosto de uma menina que não operou. Com quatro ou cinco anos, era sua vizinha no vilarejo e única sobrevivente de uma família engolida pelo mar. Acabou adotada pela comunidade. E, como lição maior, o médico trouxe da Ásia uma nova hierarquia de valores:

- É uma experiência de vida incrível. A gente fica mais sensível aos dramas do mundo, em vez de se preocupar com o convênio que atrasou o pagamento da cirurgia. Há coisas piores nesse mundo.

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