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MSF NA MÍDIA

11/2/2006
Favela de Cité Soleil vota em peso em Préval

Favela de Cité Soleil vota em peso em Préval

Região mais miserável e violenta de Porto Príncipe, a favela de Cité Soleil votou em peso no ex-presidente René Préval, como revelam os resultados parciais da apuração. A favela era tradicionalmente um reduto de Jean Bertrand Aristide, ligado a Préval, e hoje é a única área da capital ainda sob o domínio de gangues armadas. Na favela, onde se amontoam 200 mil habitantes, conflitos entre facções ou com tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) deixam um rastro de órfãos e feridos, espalhando medo.

A Minustah mantém uma base em Cité Soleil, mas os militares do batalhão da Jordânia, responsáveis pela segurança da área, só se deslocam dentro de carros de combate blindados. O repórter do GLOBO entrou na favela numa van da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF). Mas a simples presença de um jornalista ontem no único hospital da favela levou um olheiro das gangues locais a acompanhar a visita de perto para saber o que se passava. Militares das tropas de paz costumam ser recebidos a tiros e é aí que as balas perdidas fazem suas vítimas. Para manter o hospital, os Médicos sem Fronteiras contam com o aval dos chefes de gangues.

O pedreiro Sonel Answa, de 33 anos, está internado desde o mês passado no hospital, reaberto em agosto pela MSF, no coração de Cité Soleil. Ele teve o estômago perfurado por um tiro e se recupera da cirurgia.

— Eu estava trabalhando e a Minustah chegou atirando. Caí no meio da rua. Alguns moradores me socorreram — contou.

O jovem Ridnor Jedxis, de 15 anos, conta que perdeu o pai em dezembro, em meio a um tiroteio. Segundo ele, o pai era vendedor de rua e foi atingido por tropas da Minustah.

— Meu pai pagava minha escola. Agora não terei mais como estudar — disse o garoto, que calçava sapatos com quase o dobro do tamanho de seus pés.

Em Cité Soleil, é difícil separar o que é fato ou fantasia no relato dos moradores. De concreto, as paredes do hospital e a divisória de uma sala interna guardam as marcas de quatro tiros de fuzil disparados contra o segundo andar em janeiro. Era ali que funcionava a pediatria. Após os tiros, as crianças foram removidas para o primeiro piso e uma barricada de sacos de areia e tonéis protege a varanda. Anteontem, voltaram para o segundo andar, depois de uma forte chuva que alagou parte do hospital e da favela.

É lá que está o bebê Mackendy Celestien, de 7 meses, internado com desnutrição severa. O corpo magérrimo parece pequeno para segurar a cabeça, numa imagem idêntica à de crianças na África Subsaariana. Jean Robert, o pai do bebê, tem 23 anos e está desempregado.

O pintor Jean Victor, de 41 anos, sobrevive fazendo bicos como motorista de tap-taps, as vans haitianas que carregam quase 20 pessoas na caçamba de pequenas caminhonetes. Ele diz que está desempregado há cinco anos. No mês passado, sua mulher deu à luz gêmeos. O casal já tinha dois filhos e não sabe como fará para pôr comida na mesa de casa

— Deus me fará viver — disse Jean Victor.

Na entrada de Cité Soleil, restam escombros da antiga delegacia de polícia, destruída por tiros e fogo. A Rota Nacional Número 1, uma das principais estradas do Haiti, separa a favela de outros bairros. Mas quase não passam veículos nesse trecho da estrada.

Sete freiras da ordem francesa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo moram em Cité Soleil, onde mantêm uma escola e ajudam a comunidade. Duas são brasileiras. A freira A., que pediu para não ser identificada, nasceu em Natal (RN) e conta que vive há três anos na favela sem nunca ter sido importunada pelas gangues. Indagada sobre a situação ali, saiu em disparada. Uma freira espanhola que a acompanhava, disse apenas:

— Isso é coisa séria. Não podemos falar.

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