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MSF NA MÍDIA

13/8/2006
Médico brasileiro acompanha estragos da guerra

Médico brasileiro acompanha estragos da guerra

Desde que chegou a Beirute, sete dias atrás, a rotina do psiquiatra paulista Renato de Souza tem sido a mesma. Acorda por volta de 5h, toma café, checa os locais da cidade cuja população necessita de mais cuidados, desloca para lá profissionais da ONG para a qual trabalha, Médicos Sem Fronteiras (MSF), para tratar os pacientes. Volta para casa antes de escurecer, por questões de segurança, por volta de 19h, checa e-mails, fala ao telefone, quando as linhas não caem, e dorme muitas vezes sob barulho de explosões. Fará isso por pelo menos mais um mês, duração prevista de sua missão.

Em uma semana, mais de 300 libaneses visitaram as duas clínicas móveis de MSF supervisionadas por Souza na capital do Líbano. Qualquer pessoa com problemas de saúde pode procurar o serviço.

- Oferecemos cuidados de primeiros socorros e encaminhamos os casos mais graves para um hospital. A clínica funciona como um posto de saúde móvel - diz ele ao GLOBO por telefone.

Um quarto dos pacientes sofre emocionalmente

Tratar a saúde mental de pessoas traumatizadas pela guerra é uma das
prioridades do serviço coordenado pelo brasileiro, que já rodou o mundo
realizando trabalhos humanitários: Indonésia (pós-tsunami), Cachemira
(conflito Índia-Paquistão), Chechênia, Zâmbia, Nigéria, República
Democrática do Congo e Angola.

- As pessoas aqui estão muito tensas porque perderam familiares, casas e vivem em constante estado de medo e expectativa. Os sintomas são os mais variados: falta de ar, taquicardia, exaustão, raiva, frustração, sentimento de vingança, agressividade, essa última muito comum em crianças - conta.

Segundo o psiquiatra, 25% dos pacientes que procuram a clínica (em grande maioria mulheres e seus filhos) acham que estão doentes, que vão morrer. Mas não apresentam nenhum sintoma físico, e sim mental.

- Como, por causa da instabilidade e do risco, muitas vezes sabemos que não poderemos acompanhar esses pacientes, ensinamos terapias rápidas e de choque, a maioria incluindo conversa, relaxamento. Nos casos mais graves, deixamos remédios para cerca de um mês de tratamento psiquiátrico. Mas mantenho um cadastro de todos os pacientes, esperando poder vê-los novamente - diz.

Os demais pacientes atendidos nos postos de saúde são os que sofrem de
doenças crônicas como diabetes, hipertensão, problemas renais.

- Eles simplesmente ficaram sem tratamento. Tentamos, da melhor maneira possível, fornecer o tratamento e o acompanhamento adequado.

Serviços de saúde do Líbano estão comprometidos

O Líbano era um país com uma boa infra-estrutura de saúde, os serviços
públicos absorviam bem as pessoas. Mas, com a guerra, isso não é mais
possível. Em Beirute e arredores, Renato de Souza diz observar um grande número de pessoas que se deslocaram do sul (região mais afetada pelos ataques de Israel) para a capital, na esperança de uma melhor condição de vida.

- Quando chegam aqui, precisam ficar em albergues, alojamentos, campos de deslocados internos. Quando as bombas caem, muitas vezes vão para parques e praças públicas, locais abertos onde acham que podem ficar mais seguras. O desamparo é muito grande - explica o psiquiatra.

Mesmo não tendo um caráter emergencial, trabalhos como o do psiquiatra e de sua equipe tornaram-se essenciais à saúde pública do Líbano.

- Traumas psicológicos e sofrimento decorrente de doenças crônicas são
altamente incapacitantes. Comprometem a qualidade de vida e a segurança dos que tentam escapar do confronto.

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