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MSF NA MÍDIA

10/1/2008
Sudão é mais tranqüilo que o Brasil

Sudão é mais tranqüilo que o Brasil, diz mineiro no Médicos Sem Fronteiras

Em entrevista ao G1, o pediatra Sérgio Cabral falou da realidade no país devastado. Ele disse não temer a possibilidade de guerra civil no país.

A guerra é um monstro grande e pisa forte toda a pobre inocência das pessoas". A frase, tirada de uma música, é a que melhor define, para Sérgio Cabral, brasileiro, voluntário da Organização Médicos Sem Fronteiras, há dois meses no Sudão, as conseqüências da guerra civil no país.

Em entrevista exclusiva ao G1, por e-mail, Cabral falou sobre a vida nessa terra devastada e violenta, onde a guerra civil ameaça recomeçar a qualquer minuto. Tudo isso não assusta ele, que contou que é informado pelo MSF de todos os conflitos que ocorrem no país. Caso seja necessário, há planos de retirada.

“Me sinto bastante tranqüilo quando estou trabalhando no hospital ou
quando ando pelo mercado da cidade. Na verdade muito mais tranqüilo do
que me sentia no Brasil”, disse.

“Deixamos as portas abertas e nossas coisas em qualquer lugar, e ninguém tem medo de ser roubado ou assaltado. Quanto a meu trabalho, sinto-me muito bem, realmente me sinto mais livre, médico, gente, mais mundo, mais sem fronteiras”.

O monstro

Um conflito entre mulçumanos do Norte e rebeldes do sul, que durou mais de duas décadas. Uma guerra com um saldo de 2 milhões de mortos por causa dos combates, da fome e das doenças que se propagaram.

Para ajudar a minimizar o prejuízo desse monstro grande, Cabral, 41 anos, mineiro de Bom Despacho e pediatra, viajou ao país. A primeira missão de vacinar crianças contra o Sarampo. Ele, que havia acabado de ser aceito como voluntário da MSF no Brasil, partiu logo em seguida para a campanha de emergência no país. Sérgio foi impulsionado pela magnitude do trabalho realizado pela ONG.

O primeiro local designado: a região de Nanyangachor, Sul do Sudão. Uma área afastada da civilização, com população semi-nômade, que vive em aldeias. Mas o trabalho, que seria a luta contra uma doença que de forma epidêmica entrou pela fronteira da Etiópia causando várias mortes, ganhou uma dimensão muito maior.

Representante de um contingente escasso na região, ele além de reunir os povoados para vacinação debaixo de uma árvore – usada como posto de saúde -, passou a dar consultas e tratar desde pneumonia, impetigo, dor de dente a velhice e carência.

Rotina

Na rotina do médico, os desafios do dia-a-dia. “Minha rotina era saber que às 5h da manhã tinha que acordar para começar o dia, mas sem saber se de noite poderia dormir tranqüilamente ou teria que atender algum doente grave”, contou ao G1 por email.

No trabalho do pediatra, muita determinação para driblar as dificuldades. Uma vez de madrugada chegou a transformar a barraca que dormia num hospital por uma noite. Ele colocou um colchão ao lado do dele e “internou” uma criança com malária cerebral, encaminhando-a no dia seguinte para o Hospital de Nanyangachor.

Em seu cotidiano sudanês, ajudar exige transcender certos obstáculos, como a ausência de estradas, só “caminhos” sem nenhuma sinalização. Uma vez para levar a cidade uma gestante com placenta prévia, quadro grave que pode causar a morte da mãe e da criança, demorou cinco horas para percorrer 40 km, entre atolar, pular e sacudir dentro do jipe.

Barreiras

As condições precárias de alimentação também pesam na rotina. No almoço, tabletes de BP5, uma espécie de biscoito para crianças desnutridas. “Comíamos alguns tabletes de BP5 e tomávamos água, com isto tínhamos energia para continuar trabalhando até de tardezinha”, disse Sérgio. Comida mesmo só no acampamento na hora do jantar.

Para descontrair, uma latinha de refrigerante com temperatura de 30 graus, porque a prioridade nos refrigeradores é armazenar vacinas, alimentos são proibidos.

Sem contar ainda a barreira da língua, o árabe – idioma oficial do Sudão - e os diferentes dialetos dos locais remotos onde a MSF atua. Em Nanyangachor, o tobosa predomina. Já na nova região, onde Sérgio se encontra atualmente e realiza, de acordo com ele mesmo, sua “segunda primeira missão”, a cidade de Abyei, na fronteira entre o Sul e o Norte do país, o Dinka é a maioria.

A comunicação entre médicos e pacientes ganha o auxílio de tradutores. No pequeno hospital dos Médicos Sem Fronteiras – única construção de tijolo, além da Mesquita na área, - dois tradutores, um para o árabe e o outro para o Dinka intermedeiam as consultas do pediatra.

“Aos poucos, a gente começa a entender. Quando saímos para o mercado não temos tradutores, mas dá para aprender alguma ou outra palavra em árabe, o suficiente para compras ou para fazer uma pergunta, isto claro, temperado por gestos e algumas palavras em inglês”.

No hospital, Sérgio trabalha com uma equipe eclética. O staff é formado por uma suiça, um sudanês, duas britânicas, um angolano, um alemão e uma australiana.

“Nós, os expatriados, tomamos café da manhã, almoçamos e jantamos
juntos. À noite ficamos conversando sobre tudo e nada. A alegria reina, e quando percebemos alguém de baixo astral, nos aproximamos e conversamos. Uma boa conversa ainda é o melhor remédio para espantar fantasmas e tristezas”.

Miséria e liberdade

Como na primeira parada, em Nanyangachor , a diversidade de casos atendidos é enorme, mas em Abyei, Sérgio ficou responsável pelas crianças desnutridas. Ao todo são 18 internadas, várias com pneumonia, malária e infecção de ouvido. O trabalho inclui também o controle ambulatorial dos casos que não precisam de internação.

Para o médico, a maior dificuldade é enfrentar de frente a miséria. “Enquanto uns esbanjam fortunas, outros pedem um pouco de alimento. Enquanto o mundo se preocupa com a nova moda em Paris, outros não têm o que vestir”, diz ele, mas sem perder o otimismo.

Para ele trabalhar no MSF é encontrar a liberdade. “Carregamos tudo que temos numa mochila com no máximo 20 quilos. Fazemos um trabalho que podemos nos orgulhar, nos sentir de verdade felizes, chegar à noite e nem lembrar que existe televisão, andar pelas ruas e sentir o prazer das pessoas que nos dizem, muitas vezes em um inglês difícil: "Olá! como vai?", e nos abrem um sorriso franco e estendem a mão
para cumprimentar”, constata.

Cabral em breve vai deixar o Sudão e seguir para Somália. “Posso dizer que, se tivesse que parar agora já teria valido a pena. Ter vindo ao Sudão fez com que eu encontrasse nestas pessoas e, como conseqüência, dentro de mim, uma pureza humana que duvidava ainda existir. Eu sempre acreditei no ser humano, mas agora estou mais convicto disto, assim como estou mais convicto do porquê sofremos, principalmente no ocidente, a infelicidade da ganância. E que a ambição desenfreada não é inerente ao homem, é ensinada ou, de alguma forma, imposta”, contou.

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