destaque internas

indique esta página

Assessoria de imprensa

Jornalistas interessados em saber mais informações sobre Médicos Sem Fronteiras, favor entrar em contato com:

Vânia Alves
Tel.: 21 3527-3635
e-mail: vania.alves@rio.msf.org


João Pedro Alves
Tel.: 21 3527-3613
e-mail: imprensa@rio.msf.org


Se você não é jornalista e deseja saber mais sobre MSF escreva para info@msf.org.br.

MSF NA MÍDIA

1/8/2008
Entrevista com o diretor de MSF

Entrevista com o diretor de Médicos Sem Fronteiras

Diretor da Médicos Sem Fronteiras no Brasil e membro da organização desde 1989, Eric Stobbaerts acompanhou de perto as muitas mudanças pelas quais passou o trabalho humanitário nos últimos anos. O médico belga-suíço viu aumentar o interesse internacional, tanto dos governos como da sociedade civil, em relação à resposta humanitária às crises do planeta, sejam catástrofes naturais ou conflitos políticos. Mas percebeu também que esse interesse veio acompanhado por uma banalização do trabalho, feito com profissionalismo por organizações como a MSF. "Existe um momento em que você não pode rejeitar a ajuda de um ser humano a outro ser humano. Mas providenciar ajuda humanitária é outra história. É preciso mais do que boa vontade", afirma.

Com a experiência de quem atuou nos conflitos mais emblemáticos do fim do século passado — incluindo Líbano, Bósnia e Iraque —, Stobbaerts sabe que a agenda humanitária não pode estar atrelada a interesses políticos ou econômicos. Em entrevista ao Correio, ele demonstrou preocupação com a aproximação cada vez mais freqüente entre essas diferentes áreas. "Agora, há uma necessidade de justificar que somos realmente neutros também às populações beneficiárias. A percepção da população em relação aos organismos humanitários mudou", lamenta Stobbaerts, que também vê com reticência a atuação "humanitária" por parte dos militares que participam das forças de paz das Nações Unidas, como a do Haiti.

Quais são os principais desafios para o trabalho das organizações humanitárias?

Nos últimos anos, o contexto humanitário tem despertado cada vez mais interesse entre a comunidade internacional — não só as organizações, mas também a sociedade civil organizada. Quando comecei a trabalhar com a Médicos sem Fronteiras (MSF), no final da década de 1980, as situações de crise, sejam conflitos ou desastres naturais, dependiam de poucos atores internacionais bem conhecidos, como a Cruz Vermelha e a MSF. Hoje, as grandes crises, que são midiatizadas, atraem organizações de todos os tipos, com vários interesses e agendas, mas que também se classificam como humanitárias. Então, temos visto nos últimos 10, 15 anos uma banalização do uso do conceito "assistência humanitária". Atualmente, qualquer ação de boa vontade é qualificada de humanitária. Só que a definição clássica prevê que uma "ação humanitária" requer respostas neutras e imparciais às crises.

Que tipo de problemas essa banalização pode trazer?

Além de as organizações humanitárias desenvolverem um trabalho médico nos locais atingidos, há toda uma negociação, para garantir o espaço de trabalho. Temos que negociar, com as partes em conflito, o respeito da estrutura sanitária, das ambulâncias e das equipes médicas — sempre mostrando que estamos de "mãos limpas", que somos independentes e imparciais, que estamos ali para salvar vidas. Só que agora temos percebido uma maior dificuldade de acesso também às populações. Antes, precisávamos convencer somente as partes beligerantes da nossa boa vontade e do nosso profissionalismo. Agora, há uma necessidade de justificar que somos realmente neutros também às populações ajudadas. A percepção da população em relação aos organismos humanitários mudou.

E isso se deve somente ao mau uso do termo "humanitário"?

Há vários fatores. O primeiro deles certamente é a proliferação dos atores denominados humanitários. Hoje, não só ONGs ou instituições, mas também empresas e iniciativas pessoais são denominadas humanitárias. Isso, aos olhos das populações beneficiadas, deixa tudo muito confuso. Na década de 1990, era o que se chamava de "circo humanitário": uma situação com muita desorganização e muitos atores, onde não se sabe quem é quem. Mas no nosso trabalho não é suficiente ter boa vontade, é também preciso profissionalismo e ser independente das agendas política e militar. Outro ponto que causa muita confusão é a visão de que agir de maneira política em uma situação de crise não é suficiente. A comunidade internacional defende hoje a necessidade de uma agenda integrada, que intervenha de maneira militar, política e humanitária. Isto é, a integração desses três pilares garantiria o sucesso da solução de uma crise.

Quais os riscos dessa integração?

O perigo é que, ao integrar as três agendas, você tira a dimensão neutra e imparcial da assistência humanitária, fundamental para entrar em um país. Em um "check point" (posto de controle), em qualquer país, você vai ter que demonstrar a um soldado ou a uma milícia que você realmente não tem motivações políticas, que não tem outro interesse a não ser salvar vidas. Então, essa concepção, que dos pontos de vista diplomático e político pode parecer atraente, não é boa para nós, que trabalhamos no campo, que curamos os pacientes, que colocamos as mãos na massa. Não se pode misturar o mandato humanitário com o militar ou o político.

Mas no caso de grandes catástrofes, é quase impossível separar o caráter político da ajuda internacional...

A resposta da comunidade internacional a uma catástrofe natural realmente pode ser tão politizada quanto a resposta em um contexto de guerra. Não foi anódina a resposta de vários governos ocidentais ao tsunami, por exemplo. Não podemos esquecer que a Indonésia, o país mais atingido, é essencialmente muçulmano. No caso de Mianmar, também é lamentável que só após o ciclone Nargis a comunidade internacional tenha começado a falar sobre uma situação que a população vive há décadas. É preciso ressaltar também a importância da agenda econômica, já que, ao ajudar um Estado que sofre, os países podem construir boas relações comerciais para o futuro.

Essa relação entre as agendas política e humanitária já trouxe problemas para a MSF?

Infelizmente. O nosso espaço de trabalho tem sido abusado, manipulado, para não dizer violado nos últimos anos. A conseqüência é o aumento da insegurança para os trabalhadores humanitários. Nós já sofremos na pele, perdemos vários companheiros por eles terem sido associados a uma comunidade internacional que tem uma agenda política. No Afeganistão, onde a população vê qualquer presença estrangeira como suspeita, perdemos cinco colegas da MSF. No começo deste ano, três companheiros foram mortos na Somália com a mesma determinação: não foram balas perdidas, nós éramos os alvos desses ataques. Outra conseqüência, é que, com o contexto cada vez menos seguro, menos organizações se dispõem a estar nos lugares onde a situação é mais crítica. No Iraque, por exemplo, quase ninguém atua dentro do país. A MSF está lá, mas de forma muito discreta.

Então há lugares onde existe escassez de ajuda?

Nas áreas mais atingidas, faltam, sim, respostas humanitárias. Não há atores suficientes nas crises não-midiatizadas, negligenciadas. Nesses lugares, quando as câmeras de TV vão embora, a resposta e o interesse da opinião pública também desaparecem. Então, falta resposta, mas mesmo assim não abrimos mão de que essas ações sejam embasadas nos princípios da neutralidade e da imparcialidade. A questão da independência é fundamental. Temos o privilégio de falar que mais de 75% dos nossos fundos vêm de indivíduos, e não de governos ou empresas. São 3 milhões de pessoas em todo o mundo que fazem doações regulares à MSF. E reduzir a parte do financiamento institucional é uma estratégia nossa, porque independência financeira é importante para a neutralidade.

Recentemente, o governo colombiano usou o nome e o emblema da Cruz Vermelha para ajudar na libertação de Ingrid Betancourt. Como as organizações humanitárias vêem essa "apropriação"?

O que aconteceu na Colômbia, com o uso do emblema da Cruz Vermelha, é mais um exemplo da deterioração do respeito aos emblemas humanitários e médicos. Para mim, no entanto, o mais revoltante foi o caso em que tropas norte-americanas, buscando membros da Al-Qaeda no Afeganistão, tiraram as fardas e se vestiram como profissionais humanitários, com jeans e camiseta branca, alguns até com estetoscópio em volta do pescoço e armas no bolso. Em carros brancos, eles foram às aldeias afastadas do país, usando e abusando da imagem dos humanitários. Essa é uma falta de respeito que resulta em perda de confiança entre a população, que fica com uma visão cada vez mais negativa dos nossos trabalhadores.

Missões de paz da ONU, como a que envolve tropas brasileiras no Haiti, também se propõem a desenvolver trabalho humanitário. Esse tipo de atuação realmente ajuda?

Os esforços e as missões de paz das Nações Unidas são hoje geridas por essa concepção da integração entre diversas agendas. Nós acreditamos que o papel dos militares é importante, que eles têm a sua função, mas entrar no trabalho humanitário já e uma confusão de papéis. O trabalhador humanitário é um profissional, que tem uma técnica de trabalho e códigos éticos. É claro, existe um momento em que você não pode rejeitar a ajuda de um ser humano a outro ser humano. Mas providenciar ajuda humanitária é outra história. Na doutrina militar, existe uma prática chamada "hearts and minds", que significa "ganhar os corações e as mentes" das populações onde se faz uma intervenção militar. Só que há vários contextos em que não podemos misturar esse tipo de prática a ações humanitárias. No caso do Haiti, muitas vezes depois da ação de segurança da Minustah, entravam os programas da ONU de ajuda humanitária — que não necessariamente se baseavam em uma avaliação de necessidade. São ações que ajudam a aumentar a confiança da população nas tropas de segurança, mas que reforçam a confusão do nosso papel lá.

A MSF ainda enfrenta dificuldades para entrar em países cujas populações precisam de ajuda?

Quanto mais os regimes políticos são fechados, mais temos dificuldades para intervir. Há muitos contextos em que ainda temos dificuldades de trabalhar. Em alguns países, a nossa presença é unicamente tolerada. O que tem sido bastante interessante, no entanto, é o papel dos estados emergentes, como os BRICs (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), onde há um interesse cada vez maior por parte da sociedade civil organizada e da opinião pública em olhar não só a realidade dentro de seu território, como em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, temos mais de 35 mil pessoas mobilizadas, que fazem doações regularmente para que possamos ajudar lá fora.

Quais são os principais trabalhos desenvolvidos pela MSF no mundo hoje?

A África continua sendo o continente para o qual mobilizamos mais energia, recursos e tempo. Cerca de 70% do nosso orçamento vai para a África, onde atuamos em situações de conflito; de grandes pandemias, como o HIV (vírus da Aids), malária e a tuberculose; e de doenças negligenciadas, como leishmaniose, doença do sono e várias doenças tropicais que não interessam ao mundo farmacêutico. Ainda há a questão da fome, que é muito forte na África. Nos últimos meses, temos visto novamente uma catástrofe em nível alimentar no sul da Etiópia, causada principalmente pelo aumento no preço dos alimentos. No continente asiático, além das catástrofes naturais, temos trabalhado muito com a questão do HIV e do acesso a medicamentos. Atuamos também em contextos de conflitos, em situações de instabilidade política, como no Paquistão e em partes da Índia. Um outro grande desafio são as realidades urbanas em cidades metropolitanas, como Mumbai, Manila, Bangcoc, onde o fenômeno de exclusão social se reflete no acesso à saúde.

E no Brasil?

A MSF começou a trabalhar no Brasil em 1991, em resposta a uma epidemia de cólera na região amazônica. A partir daí, tivemos uma presença quase contínua no país, em diversos estados. A essência da atividade, no entanto, se deu em estados do Norte e na cidade do Rio de Janeiro. No Rio, temos um trabalho com moradores de rua e com comunidades que sofrem com a violência, como as de Vigário Geral e do Complexo do Alemão. Nessa última, criamos uma unidade médica que permite uma articulação com o trabalho desenvolvido pelo sistema de saúde da prefeitura do Rio, e onde também desenvolvemos um trabalho de atenção psicosocial.

Como é a participação brasileira na Médicos sem Fronteiras?

Temos cerca de 40 brasileiros, essencialmente da área da saúde, que estão trabalhando em países como Sudão, Etiópia, Mianmar. E esse número está crescendo — o que é incrível, se considerarmos que fazem apenas dois anos que os profissionais brasileiros começaram a participar efetivamente. O retorno que temos tido das equipes que trabalham com brasileiros é muito positivo, especialmente pelo nível técnico dos profissionais, que fazem um trabalho de qualidade e têm a capacidade de trabalhar em contextos difíceis. Outro ponto positivo do brasileiro é a sua capacidade de respeitar a diversidade de raças e culturas. Toda essa riqueza da sociedade brasileira reflete em uma relação muito interessante de tolerância, de respeito ao outro.

Quais são os trabalhos que a MSF ainda pretende desenvolver no Brasil?

Estamos trabalhando na criação de uma associação brasileira da MSF, que permitirá ao Brasil continuar olhando as necessidades médicas e humanitárias do país, mas também exportar profissionais para todo o mundo. Além disso, temos uma visão muito pragmática, no sentido de aproveitar as oportunidades que aparecem. Identificamos um nível de "expertise" muito avançado entre os profissionais brasileiros, o que nos levou a criar aqui plataformas de treinamento para médicos recrutados em todo o mundo, essencialmente na Europa. Isto é, o Brasil oferecerá um espaço de especialização para os profissionais de saúde do "primeiro mundo". É uma formação prática, na qual os profissionais se juntam a equipes de trabalho de grandes hospitais durante quatro ou seis semanas e vão melhorando a sua capacidade clínica.

Compartilhe:
Facebook  Orkut  Twitter

voltar para MSF na Mídia

contato
  • Formulário de Contato
  • .......................................
  • Rua Santa Luzia, 651/11º andar
    Centro - Rio de Janeiro - RJ
    CEP 20030-041 - Brasil
    Telefone: (21) 3527-3636

mídias
  • Twitter
  • Facebook
  • Orkut
  • Flickr