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MSF NA MÍDIA

18/2/2009
Solidariedade sem fronteiras

Solidariedade sem fronteiras

Recrutada pelo Médico Sem Fronteiras, a enfermeira cearense Kelly Cavalete passou, recentemente, seis meses na Somália, pobre país africano, no desenvolvimento de um trabalho junto a camadas carentes da população. Hoje ela descansa em Fortaleza, à espera de ser chamada para uma nova missão solidária mundo afora

 

 

Erivaldo Carvalho

Cada um tem sua noção e exemplo particulares do que é ser solidário. Pode ser um ato caridoso com velhinhos e crianças, doações regulares em dinheiro, ou ainda, ações de responsabilidade social, a moda do momento. Na média, por uma questão de desencargo, a maioria concorda que o importante é ajudar ao próximo, com o que está ao seu alcance.

A enfermeira cearense Kelly Cavalete Cardoso, de 27 anos, é uma dessas pessoas que acredita que, apesar dos conceitos, a ação solidária pode ir além. Muito além. Ao ponto de ela fazer disso uma parte importante de sua vida pessoal e profissional. Sem a cômoda justificativa do "já estou fazendo o que posso", ela sobrevoou oceanos, rompeu fronteiras e abriu novos horizontes para praticar o que considera ser solidariedade, no seu sentido pleno.

Recrutada pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), em 2006, Kelly foi enviada para a Somália, um dos vários países africanos arrasados por conflitos étnicos e políticos. Foram seis meses de doação pessoal, ajudando a curar centenas de pessoas, feridas no corpo e na alma. Isso, "confinada", num ambiente militarizado e inseguro.

De volta ao Brasil e já praticamente de malas prontas para outra missão, a enfermeira conta ao O POVO, num relato emocionante, como o desejo de estender a mão amiga pode superar as barreiras da religião, costumes e língua. "A gente pode ver o que o paciente quer dizer com um simples gesto dele. Onde dói, o que ele quer...", recita ela, com um sorriso nos olhos e a fala pausada.

Kelly foi para a Somália depois que trabalhou com os índios Yanomami, na Amazônia. Trabalho de formiguinha? Talvez não. A enfermeira age mais como uma abelhinha, que ao polinizar ambientes por onde passa, deixa a vida mais doce e mais valiosa. Confira os melhores trechos da conversa.


O POVO - O que leva uma jovem enfermeira a entrar numa organização como o Médicos Sem Fronteiras?

Kelly Cavalete - Eu sempre tive vontade de trabalhar com coisas humanitárias, em lugares inóspitos, diferentes. Eu não queria seguir a tradição do enfermeiro, nos hospitais. Queria algo que me fizesse sentir-se bem, para o meu diploma valer a pena. O MSF não é um trabalho que qualquer pessoa aceita, mas engrandece muito.

OP - Como foi o processo seletivo?

Kelly - Eu me formei no final de 2002. Em abril de 2003, fui para a Amazônia, trabalhar com os Yanomami, em Roraima. Lá, fiz os primeiros contatos com a organização pelo msn (recurso da internet que permite diálogos instantâneos) em outubro de 2006. Todo o processo, via e-mail, telefone e com o pessoal do MSF do Brasil, no Rio de Janeiro, levou uns seis meses. No recrutamento, tem a seleção propriamente dita, e uma entrevista, onde eles avaliam a aptidão. Inclusive no nível de inglês. Quando me informaram que eu tinha passado no recrutamento, me disseram que eu iria direto para o treinamento, e de lá para a missão. Nem sempre acontece isso. Muitas vezes, as pessoas vão para o preparatório, treinamento, e voltam para cá, e então esperam uma missão. No meu caso, eu já segui direto.

OP - Onde foi o treinamento?

Kelly - Eu passei uma semana fazendo treinamento em Estocolmo (capital da Suécia). De lá, fui para a Bélgica, que é onde funciona o escritório central do MSF do Brasil, o escritório do Brasil. Eu fui para a Bélgica pra concluir essa fase, fazer as reuniões finais e contatos. No dia seguinte, já segui para a África. A minha missão era Somália. A base de quem trabalha na Somália é Nairóbi, capital do Quênia, por questão de segurança.

OP - Ultimamente, não está tão seguro assim...

Kelly - Eu saí da Somália dez dias antes de começar a onda de violência no Quênia. Era um conflito previsto por causa das eleições, mas não imaginávamos que iria ser tão sangrento.

OP - Qual o impacto do primeiro contato com uma realidade como a da Somália?

Kelly - O pessoal do MSF me preparou muito. Eles enviam informativos sobre todos os acontecimentos do país, sobre os conflitos e as situações de segurança. Mas ler o que acontece e participar do que acontece nunca é a mesma coisa. Em Nairóbi, eu tive uma breve reunião, e dois dias depois eu estava na Somália. O país é dividido em regiões. Eu estava na região de Baku, num vilarejo chamado Oddu. A gente não vivencia a guerra civil da capital, Mogadíscio. Mas vivenciamos todas as necessidades que os somalis passam por conta da guerra, que há 17 anos deixa a cidade sem governo, sem nenhuma estrutura, inclusive, falta de assistência à saúde.

OP - Vocês atuavam, então, nas causas indiretas dos conflitos na capital da Somália?

Kelly - Exatamente. A equipe atende lá em uma antiga base militar abandonada, transformada em uma espécie de hospital, um centro de saúde. Tem várias pessoas internadas com várias causas, tuberculose, calazar, brigas e doenças infantis em geral. O primeiro choque é descer do avião, porque não tem aeroporto. É uma pista de pouso, aquela área meio abandonada. A sujeira é geral, porque as pessoas não têm noção de higiene. As ruas que são superestreitas. As casas são arredondadas, pequenas, cobertas de palhas, com paredes de pau-a-pique. O muros são feitos de galhos secos, que é o que divide as ruas. As ruas são galhos secos dos dois lados. Em todos os lugares, eles vivem como seminômades. Eles não constroem um lugar pra ficar muito tempo. Até por questão de seca e comida, a situação de vida deles não permite que fiquem muito tempo.

OP - Esse cenário não a fez repensar a decisão de abraçar a causa?

Kelly - Em todos os momentos em que eu estive lá, eu me entreguei de corpo e alma ao trabalho. Isso evita você pensar em voltar, em parar. Pelo contrário. Faz você pensar em tentar fazer mais pelo povo. Às vezes, querer até prolongar um pouco mais a estadia, para terminar um trabalho que foi começado. Porque é uma questão humana. Um faz, e vem o outro e continua o trabalho, que é muito bom. Eu saí, mas quando eu saí, uma semana antes, veio uma substituta e eu passei todo o trabalho para ela continuar, tranqüilamente. Mas vontade de parar nem de voltar, não deu.

OP - Nem sendo um local tão inseguro?

Kelly - Essa situação realmente aflige. O MSF contrata guardas para proteger a equipe. Eles andam fortemente armados. A Somália é uma exceção entre os países nos quais o MSF atua. A equipe não pode sair livremente para passear na rua, na cidade ou no mercadinho da cidade. Tem de pedir autorização ao coordenador, para poder sair acompanhado com o guarda, e de preferência que vá de carro. Então, normalmente, a vida é do acampamento para o centro de saúde, e do centro de saúde para o acampamento. Todos os dias. O que fica pouco difícil para viver, por questão de confinamento. De lazer não tem muita coisa pra fazer. Recorre-se aos livros para parar um pouquinho de trabalhar e descansar um pouco. Mas, normalmente, se trabalha muito.

OP - Qual o tamanho do aparato humano no local?

Kelly - São cerca de 170 membros, no total. Além das equipes do MSF, há pessoas que limpam, que fazem os serviços meio parecidos com o de auxiliar de enfermagem, como atender a consultas. Muitos estão ali para conseguir um dinheiro a mais para sobreviver, porque não têm muitos locais para trabalhar, senão as organizações.

OP - Como é a receptividade dos somalis as membros do MSF?

Kelly - A população recebe muito bem. São muito agradáveis. Eles têm uma cultura muito diferente da nossa, brasileira, principalmente na questão religiosa. Eles são 100% muçulmanos. Não têm nenhuma pessoa da cidade que não seja. Isso já separa um pouquinho nossos mundos. Eu andava com a cabeça coberta o tempo todo, com roupas compridas. Não mostrando braço, ombro, para respeitar. Então, na hora que a gente mostra o respeito pela comunidade, a comunidade recebe muito bem e respeita também o trabalho que a gente está fazendo.

OP - A equipe da senhora cuidava de quantos pacientes?

Kelly - Nos últimos meses, eu trabalhei especificamente com tuberculose. Foram 104 pacientes, pessoas com quem a gente tem de ter o contato direto, para saber se está tomando a medicação todos os dias, conscientizar para não abandonar o tratamento, etc. Mas também tem o calazar (leishmaniose visceral), com inúmeros casos que acontecem por lá, principalmente em crianças. O tratamento da leishmaniose visceral vale por 30 dias. Teve mês que a gente tratou 90 pacientes internados.

OP - Como é cuidar de alguém, quando a cura vai muito além do remédio? Quando a pessoa pode estar abalada emocionalmente ou traumatizada com a perda de um parente, como geralmente acontece em áreas de conflitos?

Kelly - A enfermagem é muito isso. Ela tem essa zona mística. Aqui no Ceará, onde eu me formei, é muito forte a questão de saúde pública. Essa coisa de ir, fazer o contato na casa e ir na rua. Isso me ajudou muito. Foi uma coisa que eu já tinha, desde o trabalho com os Yanomami. Na Somália, foi só desenvolver mais. Gostaria até de ter tido mais contato com os pacientes, de ir à casa deles ver como eles estavam.

OP - Mas isso, na prática, foi dificultada pela barreira do idioma...

Kelly - Realmente, não é a mesma coisa. Quando eu saí daqui, eu saí com muito medo disso. Mas os gestos são importantes também. A gente pode ver o que o paciente quer dizer com um simples gesto dele. Onde dói, o que ele quer... É possível fazer isso. E aí, depois de três meses, a gente aprende algumas palavrinhas, e vai facilitando a comunicação, compreendendo.

OP - Como foi para a senhora conviver tão de perto com a cultura muçulmana?

Kelly - A cultura deles é de muita divisão, em termos de papel do homem e da mulher. Inclusive, eles têm até de se adaptar com a questão de chegar uma mulher enfermeira para dar uma orientação. Tem um curso, para dizer o que eles têm de fazer. Para eles não é fácil. Mas eles se adaptam, como a gente tem de se adaptar, quando eles dizem que não vão comer se um homem cozinhar, por exemplo. Porque ali é o papel da mulher. Já na equipe, a questão é muito tranqüila. A equipe dos expatriados foi muito mista para a Somália. Tinha um médico de Serra Leoa, uma médica de Hong Kong, uma técnica do laboratório da Itália e um administrador de finanças belga, por exemplo. Nós nos dávamos muito bem.


OP - Como era a rotina de vocês?
Kelly - Às sete da manhã, todos já estavam no centro de saúde. A estrutura tem várias camas e colchões. Cada paciente recebe um mosquiteiro e um cobertor. A assistência se dá lá. Os médicos fazem a ronda, visitam todos os pacientes. Por dia, são cerca de 300 a 400 pacientes. O enfermeiro vai fazendo outra ronda, vendo o que precisa, fazendo as reuniões, anotando as dificuldades dos locais e atendendo às emergências que chegam. Tem a ala de tuberculose, calazar, pediátrica, a ala adulta e a da maternidade, que foi aberta em 2007. Já na ala das consultas ficam as pessoas que não precisam ser internadas. As visitas são diárias. É um trabalho de muita orientação. A gente explicava como se devia usar as latrinas e qual o benefício de se ter uma casinha para a latrina na casa ou no centro de saúde. A gente dizia que a leishmaniose não é um castigo enviado por Deus, que é uma doença tratável. Esse tipo de coisa. Duas horas da tarde, toda a equipe se reúne nos carros, e voltamos para o acampamento. Às duas e meia, a equipe almoça. Normalmente, depois do almoço, tem as reuniões dos expatriados e trabalhos no computador, para fazer escala de funcionários e organizar os programas e treinamentos.

OP - Como era lidar com pacientes muçulmanos?

Kelly - Quando a gente vai para missões humanitárias, na questão da religião a gente tem de se sentir muito neutra. Nesses locais, a gente ver todo tipo de crença e de cultura. Para a gente conseguir fazer um trabalho legal, tem de respeitar, no mínimo. Para compreender isso, tem que ter uma visão muito neutra dessas questões. Ninguém vai trabalhar com uma comunidade para tentar mudar a visão religiosa ou cultural de ninguém.

OP - A senhora tem alguma religião específica?

Kelly - Não.

OP - Como foi negociar com sua família a ida para uma missão dessas?

Kelly - Minha família (pai, mãe, irmão e marido) acha interessante o meu trabalho. Mas fica aquela tensão de pai e de mãe. "Mas por que é que você vai? Você pode arranjar um trabalho aqui. Você pode ficar por aqui". Mas eles acabaram compreendendo que o que eu quero mesmo é um trabalho desse tipo. Eles acabaram compreendendo e já estão acostumados, eu acho. O Bruno, meu marido, me apoiou muito. Foi o que facilitou para eu ir.

OP - A saudade não deve ter sido fácil...

Kelly - A questão de saudade é muito forte. Foram seis meses longe. Felizmente, lá a gente tinha condição de fazer ligações telefônicas. Algumas missões não têm. Então, dava pra se comunicar, de vez em quando. Mas isso não foi fácil. Na Somália, eles seguem o calendário muçulmano. A gente trabalhava de sábado à quinta-feira. A sexta-feira é um dia de descanso, é o final de semana. Só tem um dia na semana. É o dia em que a saudade mais aperta. É muito difícil. Ainda assim, foi gratificante.

OP - Com o fim da missão na Somália, a senhora fica numa espécie de cadastro, esperando outros convites?

Kelly - No final da missão é feita uma avaliação de desempenho, pelo nosso coordenador. Modéstia à parte, eu me sai muito bem. Além da avaliação, eles fizeram reuniões, perguntaram como eu estava, se eu queria algum suporte psicológico, quanto tempo eu queria para descansar e quando estarei pronta para uma nova missão. Eu quero pegar uma nova missão agora, depois de fevereiro.

OP - Já sabe onde será?

Kelly - Ainda não tenho idéia.

OP - O convite é feito com que antecedência?

Kelly - Depende da missão. Se for de emergência, de catástrofe, alguma coisa assim, eles têm de montar uma equipe em 24 horas. Se onde isso acontecer for muito longe do Brasil, talvez eu não seja recrutada. Mesmo assim, pode ser que eles falem que precisam, emergencialmente. Aí leva uns três dias. Mas eu sou livre para aceitar ou não.

OP - Financeiramente, compensa ser do MSF?

Kelly - As pessoas que vão para esses trabalhos humanitários, elas realmente vão porque querem fazer um trabalho humanitário, porque em termos de salário, não compensa. Pode-se ganhar mais em uma cidade ou em qualquer país, inclusive no país de origem. Então, quem vai, vai realmente por uma questão de coração, de senso humanitário. Por questões salariais, não.

OP - Quanto a senhora ganhava, por mês?

Kelly - Uns dois mil e quinhentos a dois mil e oitocentos reais. A gente recebe em euro, corrigido automaticamente, pelo banco, quando cai na conta. Aqui em Fortaleza, um enfermeiro consegue ganhar mais do que isso.

OP - Tem seguro de vida?

Kelly - Sim. Seguro de vida e de saúde.

OP - O que a senhora trouxe de lá, em termos culturais?

Kelly - Eu trouxe a mania de falar e expressar alguma coisa, e as roupas também. São muito simples. São pedaços de pano que se costura e se faz o buraco da cabeça, mas que cobre tudo. Eu trouxe porque é super-confortável.

OP - Já chegou a usar uma roupa dessas por aqui?

Kelly - Já usei (risos). Mas é super estranho para as pessoas.

OP - Com a cabeça coberta e tudo?
Kelly - Assim não. Cobrir a cabeça no Brasil fica difícil.

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