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Os dias do farmacêutico em meio a um conflito armado

No projeto de MSF em Qayyara, sul de Mosul, no Iraque, brasileira comenta sua primeira experiência em emergência
19/01/2017
Título: Os dias do farmacêutico em meio a um conflito armado

Foto: MSF

19/01/17

Foram poucas as horas que tive para tomar a decisão de estar onde estou. Quando recebi o e-mail com as informações de que estavam precisando urgentemente de um farmacêutico para um projeto de emergência, meu coração quase parou. E, no final, o texto ainda dizia: “só que a resposta tem que ser dada ainda hoje”. Então, em 48 horas, fui informada que minhas passagens já estavam reservadas e que partiria nas próximas 48 horas. E foi assim que, no dia 31 de dezembro, cheguei ao Iraque.

Sinto-me priviligiada pela oportunidade de estar aqui fazendo parte de uma equipe cheia de especialistas em emergência. Os profissionais com quem tenho convivido diariamente são realmente preparados para lidar com essa rotina tão intensa, que se faz necessária durante uma guerra. Já estive em outros contextos de epidemia, desnutrição e doenças infecciosas, mas nada se compara com estar pouco atrás da frente de batalha. São muitas as vítimas, a realidade em si é pesada. Falando ainda sobre esses extraordinários profissionais, temos a presença de uma enfermeira anestesista que trabalha para MSF há 25 anos. Sou fã de carteirinha dela já. Que sorte a minha poder estar aqui aprendendo cada dia ao lado deles – e tenho aprendido muito.

Nosso hospital funciona sete dias por semana, 24 horas por dia. Significa que não paramos. São tantas as emergências que não há tempo a perder. Os dias têm passado literalmente “voando” e eu brinco, dizendo que todo o dia é segunda-feira. E, de fato, nunca sei se é terca, sexta ou domingo. Mas não importa! Importa que cada segunda-feira aqui se trabalha com extremo empenho e dedicação.

Como farmacêutica, minha principal função é garantir que todos os suprimentos médicos estejam disponíveis de forma imediata para a equipe médica e cirúrgica do hospital, e que o suporte necessário seja dado para que os pacientes tenham qualidade ao receber um medicamento ou qualquer outro insumo. Eu me sinto super realizada pois efetivamente posso atuar como tal e compartilhar meus conhecimentos com todos aqui. Na verdade, esse deveria ser o papel do farmacêutico em qualquer lugar, aquele “braço direito” mesmo de médicos e enfermeiros, para fornecer informações corretas, ajudar nos cálculos de doses quando necessário, fortalecer o uso racional de medicamentos, informando possíveis substituições quando algum item não está disponível, etc.

Isso significa que corro de um lado para outro o dia todo, verificando se a sala de emergência está precisando de algo ou se o centro cirúrgico está abastecido para seguir com suas 11 ou mais cirurgias diárias. E estou ficando boa nisso! Esses dias um dos colegas me ligou para falar sobre certo medicamento e eu cheguei com as ampolas na emergência quando ainda falávamos ao telefone! Fico feliz, pois todos apreciam muito a minha disposição e disponibilidade em atendê-los constantemente.

Nosso trabalho em contextos como esse é fundamental, pois o controle de todo o estoque está sob nossa responsabilidade e deve ser analisado criteriosamente todos os dias. Temos vários casos de vítimas de explosões e, muitas vezes, muitas pessoas feriadas chegam ao mesmo tempo. Esses dias recebemos uma família inteira de seis pessoas cuja casa havia sido atingida por um morteiro. Então, muitas vezes, num dia você tem mil unidades de certo item em estoque e no dia seguinte, zero. Essa é nossa realidade por aqui: cirurgias diárias com amputação, grande quantidade de queimados, casos de desnutrição, pneumonia severa, tuberculose e feridos – muitos feridos! – por armas de fogo. Então, nada pode faltar.

Se fiz a escolha certa em vir? Sim, sem dúvida (meus olhos devem estar brilhando nesse momento)! Mesmo que durante minhas férias; mesmo que para trabalhar tanto, sem parar um dia sequer; mesmo estando longe da família na virada do ano; e mesmo sabendo de todos os riscos. Estar aqui e trabalhar com tanto amor no coração por essas pessoas que sofrem e vivem a realidade da guerra vale cada minuto do meu dia. Meu maior desejo é que a paz prospere logo por aqui, e que todos tenham a chance de recomeçar.