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Muito tempo também é muito pouco

Pediatra reflete sobre os vários aspectos do tempo que permeiam sua atuação com MSF em projeto de tuberculose
24/01/2017
Muito tempo também é muito pouco

Foto: Arquivo Pessoal

Faz algum tempo que não escrevo. E hoje decidi escrever um pouco sobre este tema: o tempo. Há quase um ano estou atuando como pediatra em um projeto de tuberculose (TB) de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Nukus, no Caracalpaquistão, uma região autônoma pertencente ao Uzbequistão. No início, tudo era novidade: a cultura, a língua, o sistema de saúde, a forma de trabalhar, as pessoas. Nada nem um pouco parecido com tudo o que vivi antes. Com o tempo e a ajuda de algumas pessoas, fui me adaptando. E fui conhecendo os pacientes que acompanho em seu longo tratamento de tuberculose. Este é um país com alta incidência de tuberculose multirresistente a medicamentos (TB-MDR), o que significa um período de tratamento em torno de dois anos. Ou significava – já falo sobre isso. De novo, o tempo vindo à minha cabeça.

Pois bem, com o tempo eu me tornei próxima desses pacientes e de suas famílias. Compartilhei com eles as dores das injeções diárias – imagina como o coração de uma pediatra não fica quando um paciente fala que quer parar de tomar injeções diárias? E a gente sabe que ainda falta algum tempo para isso acontecer – e suas angústias relacionadas com os efeitos colaterais, como a diferente coloração da pele, as náuseas, os vômitos e as alterações psíquicas. Tentei estar presente para ajudá-los sempre que possível. Se não minha, há sempre a ajuda das enfermeiras, das conselheiras da equipe psicossocial de MSF, da equipe de saúde local.

Com o tempo, descobri que um dos meus pacientes gosta de ler poesia, outra de brincar de médico, outra de dançar, outro de ajudar o pai na horta de casa (e inclusive me deu uma abóbora gigantesca da própria casa). Uma avó de um paciente prometeu uma festa no fim do tratamento da neta, outra paciente ganhou bolo de fim de tratamento (e de aniversário). Todos eles, com o tempo, tornaram-se próximos. Senti as dores de uma paciente quando perdeu o pai, as alegrias de outra quando terminou tratamento. Todos eles estarão para sempre em minha memória. Boa parte deles ainda está em tratamento, e não poderei vê-los terminá-lo e seguirem felizes e saudáveis pela vida que têm pela frente.

O tempo passou, meus pequenos cresceram e estão seguindo seus tratamentos. E, então, esta semana, começaram as despedidas. Alguns dos meus pacientes não moram no mesmo rayon (unidade territorial aqui) que eu e, portanto, não conseguirei vê-los mais nas três semanas que ainda me restam de trabalho em campo. Um ano, tempo suficiente para se tornar próximo de seus pacientes, tempo suficiente para fazer grandes amigos, pouco para começar a entender uma cultura. Muito para quem está em um tratamento que exige medicações diárias (e uma quantidade gigantesca de pílulas), especialmente para meus pacientes, as crianças.

Da última vez que escrevi, estava falando sobre Nawruz, o novo ano persa, a chegada da primavera, e falava sobre a esperança de dias melhores e tratamentos mais curtos e efetivos para os pacientes com TB-MDR. Novas drogas chegaram, mas ainda não é o suficiente. Muitos pacientes que precisam dessas novas drogas não têm acesso a elas. Novos tratamentos também estão sendo recomendados para um grupo específico de pacientes e, o período do tratamento, antes de 24 meses, passa a ter cerca de 9 meses. Mas ainda não é o suficiente. Muitos pacientes ainda não conseguem ter acesso ao tratamento ou não têm um tratamento efetivo. Então, neste novo ano, meu desejo é diferente. O tempo me ensinou que apenas esperança não é o suficiente; nós temos de agir para ter aquilo que desejamos. Então, desejo que todos nós tenhamos aquilo que nos é necessário. Que não nos falte o que é essencial. Que aqueles que podem fazer algo pelos outros o façam. E, como diz Drummond, “que o ano que se inicia seja do tamanho que você fizer”.