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Moçambique: uma longa estrada a percorrer no projeto “Corredor”

Médica relata os desafios da oferta de tratamento para um público específico de pessoas vivendo com HIV/Aids
22/12/2016
Data: 04/10/2016 Acabo de ultrapassar minha primeira semana das 30 que pretendo passar aqui em Beira, Moçambique, trabalhando com Médicos Sem Fronteiras (MSF). Serão 7 meses, ou 210 dias. Olhando assim pode parecer muito tempo, mas estou muito contente de voltar ao país onde vivi por 4 anos com meus filhos. Foi um tempo feliz para todos nós. Moçambique é um país populoso. Beira, que fica às margens do oceano Índico, é a segunda maior cidade do país. A cidade tem um grande porto e é a entrada da mais importa

Foto: Arquivo Pessoal

Data: 04/10/2016

Acabo de ultrapassar minha primeira semana das 30 que pretendo passar aqui em Beira, Moçambique, trabalhando com Médicos Sem Fronteiras (MSF). Serão 7 meses, ou 210 dias. Olhando assim pode parecer muito tempo, mas estou muito contente de voltar ao país onde vivi por 4 anos com meus filhos. Foi um tempo feliz para todos nós.

Moçambique é um país populoso. Beira, que fica às margens do oceano Índico, é a segunda maior cidade do país. A cidade tem um grande porto e é a entrada da mais importante via de acesso às províncias do interior, até a fronteira do Zimbábue e do Malaui. E é aqui que estamos: no projeto “Corredor”. Há um grande fluxo de populações móveis: motoristas, portuários, trabalhadoras do sexo, comerciantes, pessoas que compram e levam mercadorias para o interior e países vizinhos. Estamos apoiando o Ministério da Saúde de Moçambique na criação de estratégias para melhorar o atendimento a um grande contingente de pessoas chamadas de população-alvo: são as TS (mulheres profissionais do sexo), HSH (homens que fazem sexo com homens), UDI (usuários de drogas injetáveis) e a população carcerária. Os últimos inquéritos epidemiológicos realizados no país demonstraram que é nessa população que a incidência do HIV é mais alta, sendo ela um importante veículo para a disseminação do vírus, uma vez que têm relações sexuais frequentes, com vários parceiros e, muitas vezes, sem proteção.

Nossas equipes vão a campo para se aproximar dessas pessoas e apoiar e incentivá-las a ir às unidades sanitárias para receber cuidados. Trabalhamos com educadoras de pares1 que são também ou já foram profissionais do sexo, muitas já em tratamento com antirretrovirais, que agora trabalham captando novas “beneficiárias” ou “meninas” para oferecer prevenção e tratamento. Para identificar e abordar essa população-chave é preciso estar nos locais onde há circulação dessas pessoas. Por isso, o aconselhamento e a testagem para hepatites e HIV muitas vezes é feito à noite, nas estradas onde ficam os caminhões, locais de prostituição e diversão. O aconselhamento também reforça a importância de se proteger e também distribuímos preservativos. Já temos cerca de 800 trabalhadoras do sexo já identificadas. Uma parte delas estrangeiras, com mais dificuldades de acesso a serviços de saúde por falta de documentos ou pela dificuldade de comunicação. Mesmo entre as trabalhadoras do sexo moçambicanas, há muitos casos de abandono do tratamento com antirretrovirais porque sofreram estigma ou discriminação nessas unidades sanitárias, que aqui funcionam como pequenos hospitais.

Aqui em Beira, apoiamos duas unidades sanitárias, com planos de atender a uma terceira. Queremos oferecer serviços de saúde de qualidade a essas pessoas. Somente assim conseguiremos dar mais um passo para alcançar o controle da epidemia do HIV na África.

1A “educação aos pares” é uma abordagem de promoção de saúde na qual membros da comunidade integram as equipes para transmitir mensagens de saúde a pessoas que compartilham das suas mesmas experiências de vida e bagagem sociocultural.