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Afeganistão: “Khost, o lugar que considero minha segunda casa”

Luíza Noronha, anestesista de MSF, descreve sua experiência trabalhando em uma maternidade do Afeganistão
08/02/2017
Afeganistão: “Khost, o lugar que considero minha segunda casa”

Foto: Foto: Andrea Bruce/Noor Images

Khost é uma província do sudeste Afeganistão, situada próximo à fronteira com o Paquistão. E foi o meu lar durante três incríveis meses, enquanto atuei como anestesista na maternidade que Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém na região. Digo lar, porque foi assim que me senti: em casa. Apesar de já ter retornado para o Brasil há seis meses, sinto como se uma parte de mim ainda estivesse por lá. E acredito que sempre estará.

Luíza e profissional afegão no hospital-maternidade de Khost (Foto: acervo pessoal)Foram três meses intensos: ensinei, aprendi, sorri, chorei, passei madrugadas trabalhando, mas também tive meus momentos de lazer e de descanso. Conheci pessoas incríveis do mundo todo, todas com um propósito em comum: ajudar. Cada um à sua maneira, fazendo o que sabe. Dentre essas pessoas, muitos afegãos e afegãs. O abismo cultural que nos separa ficou só na teoria. Ali, juntos, dividimos conhecimentos e experiências. Compartilhamos uns com os outros um pouco da cultura de cada um. E convivemos com a diferença, o respeito e a curiosidade. Conheci mulheres fortes, batalhadoras. Conheci mais a fundo a história de vida de algumas delas. Sofridas, sim. Mas sua resiliência é impressionante! Conheci homens doces e atenciosos. Sim, doces! No caminho do meu quarto até o hospital, perdia as contas de quantos “Bom dia!” e “Como você está?” me foram dirigidos pelos homens da equipe nacional. Me perguntavam de onde eu vinha, se estava gostando de estar ali, se estava feliz. Muitos agradeciam, em nome da população, a minha presença.

Não, meus amigos. Eu que agradeço! O que eu vivi naqueles três meses eu carregarei comigo para sempre. E, por mais que eu tente explicar o que significou, não consigo. O que eu consigo é desejar apenas coisas boas a todas aquelas pessoas. Desejar que os profissionais afegãos que trabalham naquela maternidade absorvam ao máximo o conhecimento que lhes está sendo passado. Que continuem trabalhando com a garra e a dedicação que eu testemunhei. Que se capacitem cada dia mais, para que possam estar continuamente dando o melhor suporte possível para as gestantes e bebês do lugar que eu tenho como minha segunda casa. Porque acesso à saúde é fundamental, e ninguém deve ser privado disso. E é por isso que eu tenho orgulho em saber que eu faço parte de uma organização que se empenha em garantir que esse acesso seja universal.

Em março de 2012, Médicos Sem Fronteiras (MSF) inaugurou um hospital-maternidade na província de Khost a fim oferecer cuidados materno-infantis à população afetada pelo conflito contínuo do Afeganistão. MSF trabalha no país desde 1980. Para seu trabalho no Afeganistão, a organização conta somente com doações privadas e não aceita recursos da parte governo algum.
 

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