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Ana Cecília Moraes

Psicóloga

Ana Cecília Moraes, psicóloga, conta sua experiência com MSF na RDC

PARTE 1 - 11 de abril de 2009, República Democrática do Congo
  
 
Sou Ana Cecília Moraes, sou psicóloga e tenho 26 anos. Minha história com os Médicos Sem Fronteiras começou já há algum tempo, quando fui trabalhar no escritório da organização no Rio de Janeiro, e quando tive também a oportunidade de visitar e apoiar outros projetos e escritórios. Porém, foi só este ano que eu finalmente saí para uma missão realmente na minha área de formação, a psicologia!

Desde finais de março de 2009 estou em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, trabalhando no projeto de HIV/Aids que a organização mantém aqui desde 2002. Atualmente, nosso projeto consiste em duas estruturas diferentes: um centro de atendimento com um hospital de 20 leitos e um centro de saúde voltado para profissionais do sexo na área mais pobre da cidade. Em ambos os locais, oferecemos atendimento e acompanhamento para as pessoas que vivem com HIV/Aids, num total de mais de 5 mil pacientes inscritos, sendo um pouco mais de 2 mil sob tratamento anti-retroviral.

Meu trabalho é analisar, apoiar e melhorar as atividades da equipe de aconselhamento. A primeira coisa que preciso fazer é, na verdade, definir o que isso significa! Basicamente, a estratégia de aconselhamento começou com o crescimento da epidemia da AIDS no mundo, quando houve a necessidade de informar, discutir e apoiar as pessoas que decidiam fazer o teste de HIV. Atualmente, aqui na nossa missão, a equipe de aconselhamento realiza o teste sorológico para o vírus, mas também é responsavél por todo o acompanhamento desta pessoa ao longo de seu tratamento conosco: o início da tomada dos medicamentos, o seguimento da aderência ao tratamento, a eventual necessidade de troca de medicamentos, os efeitos colaterais, as infecções oportunistas, a gravidez em uma mulher HIV positiva, o aleitamento, a má nutrição, a hospitalização, a proximidade da morte, etc. Meu objetivo é, então, melhor definir e enquadrar todas estas atividades, de modo que o nosso atendimento seja mais eficaz para nossos pacientes.

No meio disso tudo, o projeto está passando também por um grande questionamento pois, como em todos os outros projetos que lidam com uma doença crônica, como é a AIDS, é preciso em algum momento criar uma estratégia de saída, que não signifique perda de qualidade para os nossos pacientes. Aqui em Kinshasa isso não parece ser simples, mas bom, vamos tentar achar uma solução!

Estima-se que aqui no país haja mais ou menos 4% da população vivendo com HIV/Aids, porém nem mesmo 10% das pessoas que necessitam estar sob tratamento estão. A situação é muito grave mesmo.

Aqui em Kinshasa eu moro com mais três pessoas, um deles o coordenador financeiro, o brasileiro Igor. A cidade é enorme, são mais de 7 milhões de habitantes, a maioria deles vivendo em condições bem precárias. Nós, estrangeiros, não podemos andar a pé na maior parte da cidade, muito menos à noite, e precisamos do carro para fazer quase tudo. O problema é que aqui o trânsito é péssimo, muito pior do que da minha querida cidade natal - São Paulo! Acreditem, é pior. Há poucas ruas asfaltadas, os carros não respeitam as mãos de direção, há poucos guardas e quase nenhum (eu só vi um até agora) semáforo. Como os guardas não têm viaturas ou motos, quando eles querem multar uma pessoa, precisam sair correndo a pé e tentar entrar no carro dela para então fazê-la parar! É de fato especial.

Fora isso, os congoleses são pessoas muito simpáticas, adoram o Brasil e têm uma certa fixação pelo Ronaldinho Gaucho: eu fui visitar um grupo de mulheres na semana passada e, ao entrar na casa de uma delas, muito simples, havia um belo pôster de nosso conterrâneo pregado na parede. Ela não acreditou quando eu disse que eu era do mesmo país que ele, mas bom, eu tentei convencê-la!

Nas próximas semanas, conto mais sobre o trabalho e a vida aqui no país.

 

Por: Ana Cecília Moraes
 

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