Gilmara Nascimento, enfermeira brasileira, conta sua experiência com MSF
PARTE 1 - 3 de abril, Huddur, Somália.
Escrever as primeiras palavras para este diário de bordo tem um significado um tanto quanto importante para mim, uma vez que a jornada para a Somália foi longa, ou melhor, inusitada.
Saí do Brasil no dia 1º de janeiro, cheia de motivação. Os planos eram outros... Minha missão era desenvolver um trabalho como "medical focal point" no norte do Sudão, em Darfur.
Estive em Bruxelas por quatro semanas aguardando o burocrático processo para obtenção do visto. Por diversas razões, não aconteceu. A frustração foi enorme e estava quase decidida a retornar ao Brasil, quando MSF me propôs a mesma posição em um projeto na Somália.
Não foi uma decisão fácil. A Somália estava e está nas manchetes, muitas coisas acontecendo em termos de conflitos e eu tive medo de aceitar. Não só por mim, mas pela minha família. Achei que seria complicado para os meus pais lidarem com a minha ausência, num lugar com limitações para comunicação e, ao mesmo tempo, tão restrito em termos de segurança.
O perfil do posto também era diferente, ainda que a mesma posição. Mas o projeto é muito maior e as responsabilidades também. Contudo, o desafio me pareceu interessante e aqui estou, em Huddur, uma cidade na região de Bakool, na fronteira com a Etiópia.
Já faz dois meses que estou aqui e as coisas acontecem em uma enorme velocidade. A equipe de trabalho internacional é composta de oito pessoas (médicos, enfermeiros, logístico e coordenador de campo). Trabalhamos em um Centro de Saúde (um hospital, na verdade), e em quatro postos de saúde na zonas distantes. O projeto envolve um ambulatório com vacinação, atendimento pré-natal, nutrição, internamento (pediatria, clínica médica, clínica de leishimaniose viceral, DOTs tuberculose, maternidade, programa de alimentação terapêutica). Atendemos cerca de 250 pacientes internados e realizamos três mil consultas de ambulatório por mês.
Para desenvolvermos este enorme trabalho, contamos com uma equipe de 120 trabalhadores nacionais, a grande maioria sem educação formal na área de saúde. Eles são treinados por MSF para exercerem suas funções (o que me impressiona porque, ao mesmo tempo que há tantas limitações na formação, os profissionais são capazes de fazer muito em termos de assistência de saúde).
Aqui o meu volume de trabalho é também enorme, o que de fato é muito positivo considerando as limitações que temos em termos de vida social. Devido às questões de segurança, temos guardas armados na residência, no centro de saúde, em nossos veículos. Se andamos nas ruas, o que acontece muito raramente, também temos quer ir acompanhados de seguranças armados.
Ainda assim é possível ter contato e proximidade com as pessoas. Não na mesma intensidade que eu gostaria, mas é possivel. As conversas com as mulheres sobre a cultura somali e suas percepções são muito ricas e muitas vezes intrigantes.
Em um país islâmico temos que respeitar os costumes locais e às vezes ainda mais que isso, temos que nos portar como tal. Nós mulheres usamos roupas compridas, folgadas, mangas longas e cobrimos os cabelos. Num calor de 40 graus, às vezes é realmente difícil. Por outro lado, se torna mais confortável socialmente.
A Somália está experenciado uma epidemia de cólera no momento. Não exatamente onde estou, mas em Mogadiscío e na região de Galgaduud, onde MSF tem um outro projeto, e também numa cidade a 90 km de Huddur. Isto significa que estamos alerta com a vigilância epidemiológica e um plano preparado para intervirmos a qualquer momento. Em Galgaduud, MSF esta respondendo à crise e alguns dos enfermeiros da equipe internacional em Huddur serão enviados para o outro projeto, reforçando a resposta emergencial. Eu permaneco por aqui, como a única enfermeira expatriada por alguns dias.
A Somália tem sido uma das experiências profissionais e de vida mais intensas que já tive. Às vezes, me esqueço que estou tão longe do Brasil e, por alguns momentos, até me sinto em casa. Mas em muitos momentos sou mesmo estranha, me sinto estranha. Mas sempre me reecontro em diversos momentos, nas auroras e por do sol, espetáculos naturais que aqui tenho o tempo e prazer de apreciar mais cuidadosamente; nos sorrisos ou lágrimas das crianças que tratamos; nos pacientes de tuberculose, tão estigmatizados na cultura somali. Enfim, há sempre um momento, uma esquina, um lugar onde diariamente reecontro o significado de estar aqui.
Por: Gilmara Nascimento