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Marcio Aragão

Arquiteto

Marcio Aragão, arquiteto, conta sua experiência com MSF em Moçambique

  PARTE 2 - 29 de setembro de 2009
 

 

 

Dia 20 de julho terminou minha primeira missão humanitária com MSF e eu saía de Moçambique rumo à Europa e depois Brasil. Confesso que ao sair de Moçambique já me sentia feliz de estar voltando pra casa, para meu país. Tinha o sentimento de missão cumprida e a certeza de ter feito muito pelo meu projeto, pela MSF, mas principalmente por mim e pelos que trabalharam comigo. Eu me dava conta de que tinha vivido uma experiência pessoal sem igual, de crescimento profissional e humano. Sabia que nunca mais seria o mesmo depois de todas as emoções vividas naquele país. No MSF way of life.

Mais de dois meses se passaram da data de saída da África. Incentivado pela Ju (Juliana, Assessoria de Imprensa MSF Brasil), resolvi escrever mais uma parte do meu diário de bordo.

E o Arquiteto volta à casa. Vê o mundo construído de fora e pensa no mundo que se tem por construir. No que se tem por fazer por pessoas que precisam pelo menos de um abrigo para receber tratamento. Da dificuldade de se construir em áreas remotas, onde o povo precisa de muito mais do que a gente pode oferecer. Do conhecimento básico que pode tornar a vida mais saudável e os ambientes mais confortáveis e propícios ao tratamento dos enfermos. Foi fascinante, mesmo em um pequeno espaço de tempo, sentir como o trabalho do Arquiteto pode e deve salvar vidas. Ver o fluxo de pacientes nos Centros de Saúde e Hospitais aumentarem, as pessoas saírem de suas vilas porque encontravam um local arejado, com bancos, áreas de espera, acessos, energia - seja solar, seja pública - e água potável, sendo de poços ou da coleta das águas das chuvas. Foi muito bom aplicar meu conhecimento técnico. Investir não só nas infraestruturas de tratamento, mas no desenvolvimento profissional e pessoal das pessoas com quem tive contato.

Quando entrei no carro para sair de Angonia, bem ao norte de Moçambique, quase Malauí, meu coração apertou. Olhei e me despedi das pessoas que passaram nove meses comigo, que me receberam e com quem aprendi demais. Sentei no carro do MSF e olhei para o povo, a cidade, as obras que deixei. No caminho para Tete, rumo ao aeroporto, não resisti e chorei. Não tenho vergonha de ter sentido essa emoção nem de dividi-la com vocês. Foi inesquecível.

O que posso registrar de mais importante nisso tudo é que com conhecimento técnico e esforço você vai aonde quiser e faz o que quer. Foi incrível ver o resultado do trabalho de um Arquiteto na saúde pública, na qualidade de vida de um povo. Com medidas simples, pequenas intervenções sustentáveis, fizemos muitos e tenho certeza que continuaremos a fazer com outros profissionais que virão.

A decisão de voltar agora se deve não à minha vontade, mas às regras de MSF. Logístico em primeira missão não pode estender contrato em Angonia. Concordo plenamente. Devemos recrutar mais pessoas e possibilitar a elas que tenham o grande prazer de trabalhar nesse lugar. Hoje, só tenho a agradecer a MSF, à minha família que sempre me apoiou e à minha filha que nasceu e que neste momento precisa de mim bem perto.

Agora é curtir umas férias, decidir o futuro e se Deus quiser partir para uma nova missão.

Obrigado, Márcio César Aragão

Leia a primeira parte do diário de bordo

 

Por: Marcio Aragão

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