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Thomaz Bittencourt

Médico generalista

O pediatra paulistano Thomaz Bittencourt conta sua nova experiência com MSF, desta vez, no Quênia

Parte 1 - 13 de setembro de 2011, Quênia

Faz um certo tempo desde meu último diário, então penso ser importante me apresentar.

Meu nome é Thomaz, tenho 30 anos, sou pediatra, sem fronteiras. Sou paulista, paulistano e são paulino. Tenho pais maravilhosos, irmãos que me devem sobrinhos e uma noiva que adora MSF, mas não gosta de me ver muito longe.

Formado em São Paulo, passei um ano na Amazônia servindo a Marinha do Brasil, voltei para fazer residência médica em pediatria.

Trabalho com MSF desde 2009. Naquele ano, passei a maior parte do tempo na Libéria, onde atuava como único pediatra em um Hospital de Monróvia, capital desse país. Terminada essa missão, retornei novamente à minha cidade natal, para aperfeiçoar meus conhecimentos agora em urgências e emergências pediátricas, mas ainda disponível para missões de curto prazo.

Atualmente estou em uma dessas missões. Para explicar a atual, preciso falar uma missão anterior.

O ano passado fui mandado para o Quênia, onde organizei treinamento para a equipe nacional somali, que trabalha com MSF no Istarlin Hospital, na cidade Guri el, na região Galgaduud, que fica bem no meio da Somália.

Na ocasião fui pego de surpresa. Existia um pediatra já determinado para esse treinamento, que na última hora teve que cancelar. Recebi uma ligação tentadora: você consegue ir algumas semanas para o Quênia? Poder, eu não poderia, mas graças a intermináveis trocas de plantão e a muita boa vontade dos meus colegas e chefes, consegui.

Os menos versados em geopolítica podem fazer aí uma pergunta simples. Não seria mais fácil ir direto para o tal Hospital, ao invés de trazer pessoas até o Quênia?

Seria, com certeza. O problema é que a Somália é um dos países mais fora de controle do mundo, desde que o governo de Mohamad Siad Barre colapsou em 1991. Desde então diversas tentativas de atingir estabilidade e formar um governo efetivo falharam. É extremamente difícil para qualquer organização internacional trabalhar nesse país. Sequestros de pessoal internacional são frequentes, mesmo estes sendo trabalhadores humanitários. A presença de uma equipe estrangeira por longo tempo é impraticável, e o projeto em Guri el funciona em um esquema chamado de "controle remoto".

Em qualquer projeto dos Médicos Sem Fronteiras, sempre existe uma maioria de funcionários contratados no país e uma minoria de profissionais internacionais vindos de fora. Existe sempre uma equipe de coordenação central no país, e diversos projetos. No "controle remoto" a coordenação está fora do país, e a equipe de cada projeto não conta com expatriados.

A equipe de coordenação fica baseada no Quênia, país que faz fronteira com o sul da Somália, e de lá, através de telefone, internet e visitas rápidas (eles chamam de “flash”) apoiam a equipe nacional, que na realidade toca o projeto.

A situação de segurança era tal que não foi possível ir à Somália. Para usar um termo islâmico, "Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé".

Istarlin é o único hospital secundário da região, e atende adultos e crianças. Possui centro cirúrgico, maternidade, enfermaria para homens, mulheres e crianças. Porém não há nenhum pediatra trabalhando lá. Por isso, a própria equipe do Hospital havia requisitado algum tipo de treinamento, eles simplesmente não sabiam como lidar com os pequenos.

Vieram do Hospital sete pessoas. Dois enfermeiros, uma médica, duas parteiras e uma oficial clínica, profissão que não existe no Brasil, uma espécie de "auxiliar de médico". Fiquei encarregado de ensinar em uma semana algo que até agora estou aprendendo; toda pediatria.
Consegui autorização para usar um Hospital queniano para atividades práticas observacionais, a maternidade de Puwani, maior do país, que realiza quase cem partos por dia. Tive três dias para montar minha programação e preparar as aulas. Tentei ao máximo distribuir tarefas, com algumas aulas ministradas pela equipe de treinamento que é fixa com a coordenação, além da equipe de Puwani e uma parteira expatriada que trabalha com MSF e estava entre missões por aqui. Porém, a maioria do curso acabou em minhas mãos.

Após conversar com o coordenador médico e com os coordenadores da equipe de campo, concentrei os temas a serem ensinados nos mais críticos. Emergência pediátrica, triagem e neonatologia.

99% da população somali é mulçumana, incluindo meus alunos. Vai aqui a lista das gafes. Primeiro, não se cumprimenta uma mulher somali estendendo a mão. Segundo, não se fala sozinho com uma mulher somali. Terceiro, deve haver pausa para rezar de tempos em tempos, e local separado para reza de mulheres e homens. Quarto, quando se organiza um curso no meio do Ramadã, período em que todo bom mulçumano jejua até o pôr do sol, não adianta colocar no programa várias pausas para café. Quinto, não se deve colocar nenhuma referência aos Estados Unidos em material impresso que os alunos levem para casa, a não ser que você queira complicar muito a vida deles. E finalmente, não é de bom tom colocar nenhuma imagem em aula de mulheres de cabelos soltos ou, pior ainda, desenhos de mulheres sem roupas (mesmo que seja um inocente manequim de ressuscitação).

Foi interessante notar também algumas diferenças culturais entre o Quênia e a Somália. Os meus alunos homens nunca haviam presenciado um parto e as mulheres ficaram absolutamente horrorizadas que as quenianas conseguiam parir com homens assistindo, ou ainda pior, conduzindo o parto.

Mesmo cometendo (ou quase) a maioria dessas gafes, a semana terminou com redundante sucesso. O grupo, que estava atendendo crianças há anos, aprendeu conceitos de ressuscitação neonatal e pediátrica, reviu o manejo específico das principais doenças das crianças que eles atendem e teve ao menos uma noção dos cuidados adequados a um recém-nascido.

Agradecidos, prometeram repassar esses conhecimentos aos seus colegas. Também foi lançada aí uma ideia bastante interessante, que já havia sido sugestão da coordenadora de pediatria do MSF; o uso da telemedicina para permitir uma supervisão mais próxima dos casos pediátricos mais complicados.

Ao final do treinamento além de agradecimentos recebi um convite; retornar para seguir os resultados do treinamento, ter oportunidade de treinar mais pessoas e, por que não, de visitar o hospital. E é isso que vim fazer essa vez. Mas isso fica para o próximo post.

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