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Gúpi Munhoz

Psicólogo

Gúpi Munhoz, psicólogo, conta sua experiência em Alagoas, na resposta de MSF às enchentes

Parte 2 - 15 de agosto de 2010, Alagoas. Há 41 dias no terreno

"Se você não tivesse aparecido eu teria enlouquecido". Essa foi a declaração de uma paciente após sete sessões de psicoterapia breve. Ela perdeu grande parte dos pertences na cheia e foi parar na rodoviária de uma das cidades onde MSF atua, e que se tornou abrigo para cerca de cem famílias.

Dividindo uma sala de 5x3 metros com dez pessoas de sua família, Isabel (nome fictício) se sentia confusa, perdida, irritada, impaciente, agitada e triste. "Eu tinha minha casa, lá era tudo certinho, limpinho. Eu podia dormir tranquila, fazer meus trabalhos e viver tranquilamente... Agora, vivo nisso, passo o dia todo limpando essa bagunça, preocupada com meu filho em toda essa sujeira, tenho apenas esse canto e ainda ninguém consegue dormir à noite, a zuada é terrível..." (Zuada: bagunça que acontece durante a noite, música alta, álcool, drogas, brigas, etc). A privacidade nos abrigos é quase que totalmente suprimida, pois os espaços (salas ou cantos improvisados com lençois e lona) se situam lado a lado, restam somente alguns corredores para passagem. Atualmente é possível tomar um banho de caneca nos banheiros individuais construídos por MSF e realizar limpezas pessoais e gerais com ajuda dos kits de higiene que MSF distribuiu, mas nas três primeiras semanas após a catástrofe nem isso era possível.

Estas necessidades básicas são fundamentais para se chegar a um mínimo de saúde mental. Entretanto, para aqueles intensamente fragilizados e bloqueados no que diz respeito aos recursos psíquicos de adaptação, é necessário uma intervenção no nível psicológico.

Atualmente, Isabel está tranquila e orientada. Conseguiu manter o equilíbrio e tomar decisões adequadas mesmo dentro de um contexto com muita tensão e desorganização. Esperando para sair do abrigo e se preparando para começar a voltar a suas atividades laborais, Isabel se mostra fortalecida e motivada para recomeçar sua vida.

Após seis semanas de reposta emergencial em Saúde Mental, realizamos quase 300 consultas psicológicas (a maioria em atendimentos individuais) e 150 orientações. Cerca de 300 pessoas afetadas pela cheia receberam atenção direta em Saúde Mental através de MSF. Os parceiros locais (secretarias do estado e a categoria dos psicólogos) que conseguimos mobilizar, orientar e treinar vem atendendo também uma parcela importante da população afetada.

Hoje sinto que a esfera emergencial em psicologia foi satisfatoriamente suprida no que diz respeito à vivência traumática decorrente da cheia. Quando caminho pelos abrigos vejo pairar no ar uma cronicidade urgente e gritante decorrente de uma antiga problemática social que afeta toda esta população, no entanto, é uma questão crônica do estado de Alagoas.

Gostaria de encerrar este diário com trechos do relato de uma de nossas psicólogas locais, Silma. Ela disse: "Vi que tudo que aprendi, ou achava que aprendi, nos bancos da faculdade e universidades não era nada daquilo. Que se pode compartilhar com a dor do outro tão intimamente e profundamente que não são as paredes de um consultório com acústica perfeita que fará a diferença. Acolhi pessoas em um posto de combustíveis, com todos os sons de uma cidade que não podia parar porque não dava para ficar lamentando seus mortos porque precisava alimentar seus vivos. Naquela tenda armada em um posto de gasolina ouvi histórias que jamais pensei que existissem. Nas casas daquelas pessoas, junto a várias pessoas presentes unidas ao tudo que perderam, presenciei sensações e emoções que os bancos da faculdade insistiam em dizer que só anos de análise poderiam curar, e que para isso precisaria de atendimento isolado, de portas fechadas e sem nenhum envolvimento do suposto terapeuta. Atendi em meio a animais, atendi enquanto as mulheres preparavam alimentos doados para seus filhos e companheiros, atendi no meio do que parecia um grande caos, e em 40 e poucos dias a conclusão é que nesses ambientes a psicologia pode dar certo sim. Vi claramente pessoas se fortalecendo emocionalmente dia após dia e em cada atendimento a melhora do paciente escancarada diante dos meus olhos..."

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