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Maria Claudia Soares

Pediatra

Maria Claudia Soares, pediatra, conta a sua experiência com MSF em Bangladesh

Parte 1 - 26 de abril de 2010, Dhaka, Bangladesh

Olá a todos! Escrevo de Dhaka, Bangladesh, onde sou pediatra em uma missão de desnutrição e saúde básica primária em uma favela chamada Kamrangirchar.

Cheguei aqui há quase três meses, a missão já está quase terminando para mim, mas queria escrever e contar um pouquinho do meu trabalho aqui. 

MSF montou uma clínica em Kamrangirchar, uma favela no subúrbio de Dhaka. Quem vê a clínica funcionando não consegue imaginar todo o trabalho que dá organizar tudo isso, especialmente em um país diferente, com língua e cultura diferentes. 

Contratação de funcionários locais, treinamentos, organização do espaço físico, farmácia, consultórios, fluxo de atendimento... Sem contar os protocolos médicos, que devem ser adaptados à cultura do país. 

A abertura da clínica foi um dia de muita alegria e cansaço. Muitas famílias vieram trazer suas crianças para serem atendidas. Uma sala de espera lotada de pequenas crianças e mães com roupas coloridas nos mostrou que a carência de assistência médica aqui é realmente enorme. 

Kamrangirchar é um local considerado uma favela, mas que na verdade parece uma grande cidade, muito carente. Sua população estimada é de 300 mil pessoas (mas já ouvimos falar de até 800 mil). As casas se instalaram nas margens do rio Buriganga, absolutamente poluído. As famílias usam água de poço na maioria das vezes, mas algumas usam, sim, a água escura do rio para consumo, higiene pessoal e de suas roupas. É uma cena muito triste e preocupante. 

Nosso foco principal é a desnutrição, e em segundo lugar o atendimento básico primário da população. Estamos descobrindo que a carência de serviço básico parece pior que o problema nutricional. 

Dhaka é a capital de Bangladesh. É uma cidade absolutamente encantadora! Barulhenta, agitadíssima, colorida e cheia de gente, é um reflexo de um país com densidade demográfica de mais de 1000habitantes /km², com crescimento absolutamente desorganizado, aonde famílias chegam da zona rural em busca de oportunidades de emprego diariamente. A gente já viu nesse filme, né? 

O trânsito é uma loucura, sem regras, sem multas, e buzinar é imprescindível para os motoristas bengalis. Carros, ônibus, CNGs, e rickshaws disputam as ruas e avenidas de forma nada harmônica. Me surpreende o fato de não presenciar acidentes com frequência. 

Mas o grande segredo dessa cidade é seu povo, simpático até onde se pode ser, sempre pronto para ajudar, sempre gentil, sempre aberto pra retribuir um sorriso.

A cidade economiza energia cortando o abastecimento a cada 2 horas, aproximadamente. Duas horas depois, tudo volta a funcionar de novo, como se nada tivesse acontecido. Todo mundo está acostumado com isso, e o negócio é entrar no esquema e colocar os equipamentos que usam bateria imediatamente na tomada pra carregar assim que a energia retorna. Quem pode, tem gerador, e liga nele uma lâmpada importante da casa e um ventilador, sempre! 

Dhaka é muito, muito quente! Os 35º - 40º C habituais são percebidos de forma muito mais intensa por causa da umidade. Até brasileiro estranha! A sensação é de moleza, cansaço, você se sente numa sauna e a pele fica grudando 24horas por dia. Hoje, quase 3 meses após minha chegada, posso dizer que estou mais adaptada, mas ainda é uma grande alegria entrar num supermercado ou restaurante com ar condicionado. 

A população é muçulmana na sua maioria, com uma pequena porcentagem de hindus, budistas, cristãos e outros. Assim, todo o cuidado é pouco na hora de se vestir ou mesmo na forma de se comportar em locais públicos. É importante e gratificante respeitar os costumes locais e se integrar. 

A comida é deliciosa! Além da comida bengali, restaurantes indianos, chineses e tailandeses podem ser encontrados em toda parte. Acostumar com os temperos é fácil, mas meu estômago já está enjoado do chilli... Difícil é se controlar para não comer demais. Muita riqueza gastronômica! 

O grupo de expatriados da missão é bastante heterogêneo. Serra Leoa, Indonésia, Suécia, França, Bélgica e Brasil estão muito bem representados por aqui. Brasil, claro, se destaca no ping-pong do final do dia, pra refrescar a cuca! Uma bandeira do Brasil na sala já se preparava para a Copa do Mundo desde meu primeiro mês aqui. Aparentemente 90% dos bangladeshi torcem pelo Brasil ou para Argentina, e vemos bandeiras em toda parte! Dá pra se sentir em casa! 

Nas sextas, dia de descanso equivalente ao nosso domingo, o negócio é sair pra bater perna e conversar com as pessoas nas lojas, ruas, restaurantes. As lojas de tecido e roupas locais são tão lindas que a gente perde a fala. 

A missão está chegando ao fim, e fico contente de ter podido ajudar. Meu trabalho como consultora em pediatria foi treinar os outros médicos que ficam, ajudar a implementar os protocolos, e definir um hospital de referência para as crianças. Tudo quase pronto, em breve será hora de ir pra casa. 

Mais uma missão, mais uma vez sinto privilégio e enorme prazer em trabalhar com MSF e conhecer um país absolutamente encantador. 

Muito obrigada a todos que contribuíram direta e indiretamente para a minha vinda. Um enorme abraço para família e amigos, lembranças a todos.

Cláudia.

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