Esdras da Silva Jr., médico, conta sua experiência com MSF em Moçambique
Trabalhar com HIV na África não é fácil, mas Moçambique em especial tem sido bastante desafiador. A epidemia aqui está tão fora de controle que, em Maputo, cerca de 23% da população sexualmente ativa têm o vírus. Em alguns bairros, a conta chega a 35%. Só para se ter uma ideia, a prevalência do HIV no Brasil é de cerca de 0,6% da população.
Podemos caminhar nas ruas e ver o flagelo em cada esquina, no rosto das pessoas, seja pela falta do medicamento ou pelo efeito colateral dele (lipodistrofia). O número de crianças órfãs de pais que morreram pela infecção também não é dos mais animadores, sem falar que parte destes órfãos também está infectada.
Cerca de 68% das pessoas infectadas pelo HIV e que precisam iniciar o medicamento estão sem acesso às drogas. A escassez de recursos humanos na área de saúde é outro fator impeditivo para o acesso universal aos antirretrovirais: há apenas cerca de 800 médicos no país para cerca de 22 milhões de habitantes, situação pior só a do Malaui, onde trabalhei ano passado. O governo ainda reluta em fazer o "task-shifting" colocando enfermeiras e auxiliares para prescrever a medicação (porque aqui não há outro jeito).
A expectativa de vida do país baixou e agora está na casa dos 38 anos, tudo devido ao HIV! Tudo isso somado a um cenário devastado por 20 anos de guerra civil que deixou os sistemas de educação e saúde em frangalhos. Noventa e seis por cento de todo o fundo para o combate a epidemia vem de ajuda externa (OMS, PEPFAR, ONGs, Global Fund, etc) e há sinais de que boa parte destes recursos está em curso decrescente devido à crise global instituída em 2009.
Escrevo isso como um testemunho! Não é justo uma parte da população do planeta ter acesso ao tratamento do HIV enquanto nesta parte do mundo acontece um verdadeiro genocídio... Silencioso!!