Carolina Galvão, médica infectologista, conta sua primeira experiência com MSF na África do Sul
Parte 2 - 1º de dezembro de 2009, Khayelitsha, África do Sul
Atualmente há mais ou menos 13 mil pacientes recebendo antirretrovirais gratuitamente em diversas clínicas, mas sabemos que ainda há milhares de pessoas sem acesso a essas medicações e nosso desafio é proporcionar um tratamento universal.
Nossa outra luta é para integrar os serviços de HIV e tuberculose, pois aqui ainda há clínicas que só tratam uma ou outra doença, então o paciente tem que frequentar dois lugares, e isso dificulta muito seu tratamento. Há também em Khayelitsha um projeto piloto que MSF desenvolve para tratar pacientes com tuberculose multirresistente na comunidade, devido a altas taxas de abandono ao tratamento quando esses pacientes são hospitalizados por seis meses.
Minha função é iniciar o tratamento para aqueles pacientes que mais precisam e atender os casos mais complexos, sempre ensinando as enfermeiras a lidar com eles e a integrar os serviços de HIV/TB. Como há um número gigante de pacientes e poucos médicos, as enfermeiras e os grupos de suporte são cruciais nesse contexto. Sem eles essa tarefa se tornaria impossível. O trabalho em equipe é a chave desse sucesso e todos sabemos disso!
Em abril, comecei trabalhando em duas clínicas de saúde (MAG e KUY), numa clínica específica para gestantes HIV+ e numa casa de abrigo. Cada uma dessas clínicas oferece antirretrovirais a cerca de mil pacientes e atende outros milhares que ainda não se beneficiam dos medicamentos.
Em agosto pude sentir uma grande realização, pois entregamos MAG para a administração do governo. Isso foi uma concretização para nós, pois MSF trabalha sempre visando a posterior sustentabilidade dos seus projetos por meio dos governos ou de entidades relacionadas. Nosso próximo plano é entregar KUY até o final desse ano. Nossas atividades hoje estão intensamente ligadas a isso.
Apesar de o trabalho ser pesado, por causa do grande número de pacientes, no final de cada dia sinto um gostinho de vitória, pois pudemos colocar mais e mais pessoas em tratamento e isso me conforta. É muito triste saber que apesar de o HIV/Aids ser uma doença tratável ainda há muitas pessoas sem acesso às medicações, e muitas estão a morrer por causa disso.
Quando me perguntam sobre o medo de estar trabalhando numa comunidade com taxas alarmantes de criminalidade, pobreza e desemprego, penso que esse medo, apesar de existir, é muito pequeno, comparado com a grandiosidade do sentimento que recebo a cada dia de todas essas pessoas.