Otávio Omati, médico brasileiro, conta sua experiência com MSF
PARTE 1 - Bor, sul do Sudão.
Mais uma missão chega ao fim. É uma mistura estranha de sentimentos. Estou feliz por poder voltar para casa, por ter uma sensação de trabalho bem feito, mas ao mesmo tempo triste por estar indo embora do Sudão.
Vivemos intensamente o dia-a-dia da missão, nossa vida se transforma rapidamente desde o primeiro dia de trabalho e nem percebemos que, no final, nossa vida se resume ao acampamento, ao hospital, aos pacientes e às pessoas envolvidas na missão. É o nosso pequeno mundo. Deixar para trás os amigos com os quais convivemos e trabalhamos juntos, o pronto-socorro, a mesa onde comíamos,
a barraca onde dormia, os pacientes. Tudo é motivo para ficar triste, para sentir saudade, por mais difícil que tenha sido a missão. E saber que esta vida que conhecemos não vai mais existir dentro de algumas horas.
Mas a vida ali continua normalmente. Será que vão lembrar de mim, do meu nome? Será que fiz alguma diferença? Valeu a pena? São questões que surgem na minha cabeça. No fundo, sei que fizemos a diferença para algumas pessoas, não importa como, se somente com um sorriso ou com antibióticos. Valeu a pena.
Vou a Nairobi. Tenho que fazer alguns exames de sangue, pois tive um acidente com uma agulha utilizada em uma paciente. Acidente bobo. Não adianta, por mais cuidado que tomemos, acidentes acontecem. Mato a saudade de um boa salada e uma suculenta fatia de carne. Damos mais valor a esses pequenos prazeres depois que passamos um tempo no meio do nada.
Em Nairobi encontro com a coordenadora médica do projeto de MSF na Somália, com a qual havia trabalhado na Caxemira no ano passado. Conversa vai, conversa vem e recebo uma proposta para trabalhar num dos projetos de MSF na Somália. Pedi um tempo para pensar, pois acabara de sair de uma missão difícil e muito intensa. Tinha vontade de dizer sim na mesma hora, mas ainda precisava assimilar e refletir sobre tudo o que me havia passado no Sudão.
Me dei um pequeno presente. Fui viajar alguns dias pelo Quênia. Algumas praias e um safári de tirar o fôlego! A natureza é realmente impressionante! Consegui descansar e recuperar alguns quilos que a malária teimou em tirar de mim. Resolvi aceitar a proposta sobre a missão na Somália, mas primeiro tenho que voltar para o Brasil.
Logo já estarei de partida novamente. Antes, quero fazer algumas compras e ler alguns livros sobre a Somália, para entender um pouco melhor o contexto de onde vou trabalhar.
Nos vemos lá.
Por: Otávio Omati