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Mônica Carvalho

Médico generalista

Mônica Carvalho, médica brasileira, conta sua experiência com MSF em Moçambique

PARTE 1

21/02/2006 - Hoje está fazendo um mês que saí do Brasil. O primeiro dos doze meses que passarei na África. Até que tenho motivos para comemorar. Estou bem e me integrei bem à equipe de expatriados* de MSF em Moçambique. Todo staff (equipe) local foi muito simpático. Eles ficaram aliviados com a minha chegada e comentaram: "Até que enfim uma médica expatriada que fala português...".
Quando recebi a proposta da missão, no final do ano passado, e fui informada que meu trabalho seria no interior do país, quase na fronteira com o Zimbábue, pensei: "Nossa, ir para África, Moçambique, que está entre os 10 países mais pobres do mundo, trabalhar com AIDS e ainda no interior? Será que será bom?". Está sendo.

Maputo, a capital de Moçambique, como todas as cidades grandes, tem mais oportunidades e facilidades, mas, em compensação, muitos problemas.

Tete, a cidade onde estou morando, é muito mais segura, sem trânsito. Podemos fazer quase tudo a pé e o povo é muito simpático e alegre. Ainda estou me acostumando com o calor, que é algo realmente impressionante. Eu morei muitos anos em lugares quentes, mas aqui o calor é seco. Sorte termos ar condicionado em casa e no consultório. Mas eu tento não ficar muito tempo fechada no consultório com o ar ligado, pois onde eu trabalho a incidência de tuberculose é de 50%!

Toda a equipe trabalha muito, sobretudo os expatriados, pois o staff (equipe) local tem hora para ir embora do escritório, mas nós não. Saímos cedo. Eu vou para Moatize, um distrito próximo, com cerca de 30.000 pessoas, das quais 20% são soropositivas. Eu não acreditei quando soube. Nunca imaginei que a situação fosse tão grave: uma em cada cinco pessoas está contaminada com o vírus HIV ou já está doente com AIDS.

A maioria dos doentes está em uma fase avançada da doença e aqui tenho entendido, apesar do meu pouco tempo, o que é salvar vidas. Os ARVs (antiretrovirais) têm feito milagre em pacientes e o trabalho de MSF é muito importante para a população afetada.

Quando cheguei ao Hospital de Dia de Moatize, percebi que todas aquelas quase 100 pessoas, de todas as idades, que esperavam para fazer exames, pegar remédios ou por atendimentos, têm AIDS, e pensei: "Pronto, cheguei à África. Infelizmente, é esta a realidade deste país e de muitos outros dentro do continente africano".

As projeções sobre a doença ainda são pessimistas. A incidência da AIDS nos últimos anos se estabilizou, mas ainda não começou a cair. O número de casos novos é impressionante. Em Moçambique 500 pessoas se contaminam com o vírus da AIDS todos os dias.

O número de orfanatos em Tete é enorme, levando em consideração a população total. Só eu já conheci dois. Estima-se que em 10 anos o país sofra um colapso econômico, pois o número de órfãos tende a crescer, uma vez que a mortalidade entre os adultos doentes é alta, o número de crianças é grande e a expectativa de vida é baixa. Com isso, a população economicamente ativa tende a diminuir e o número de doentes e órfãos a aumentar. Resultado: mais miséria e sofrimento.

O nosso país tem muitos problemas estruturais e governamentais, mas em matéria de saúde pública, comparando com Moçambique, somos a Bélgica. Os quase 20 anos de guerra civil em Moçambique fez mais estragos que feridos, órfãos ou mutilados por minas. A educação, saúde e as oportunidades de trabalho também foram drasticamente atingidas. No final da guerra só restaram 15 médicos em todo país, e praticamente todos estão na capital.

Nós de MSF estamos aqui para dar uma pequena contribuição ao país, mas ainda é muito pouco.

Tenho aprendido muito aqui e espero poder ajudar.

* profissionais que deixam o seu país para trabalhar em outro.
 
 
Por: Mônica Cavalho

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