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Raquel Yokoda

Médica

Raquel Yokoda, médica brasileira, conta sua experiência com MSF

PARTE 1 - 14 de dezembro, Tete, Moçambique.

 
Faz duas semanas que cheguei em Tete para uma missão de um ano. Esta é minha primeira missão com os Médicos sem Fronteiras.

Sou paulista, mas desde meu primeiro trabalho no interior do Brasil, na Amazônia, sempre cultivei uma imensa vontade de atuar nesta organização que tem o orgulho de ostentar um prêmio Nobel da Paz e uma excelente reputação nos mais diversos contextos de emergências humanitárias. Finalmente, esse sonho pôde ser realizado neste ano em que os recrutamentos passaram a ocorrer em território brasileiro.
 
Aconteceu em agosto, fui recrutada por uma equipe muito bem estruturada no Rio de Janeiro. Logo em seguida veio a proposta de missão em Moçambique e a necessidade de realizar dois cursos preparatórios: o primeiro na Dinamarca e na Bélgica e o segundo na Alemanha. Deixei o Brasil em outubro, rumo a um mundo totalmente novo, repleto de desafios em vários aspectos. Quando me despedi de minha família, sabia que nunca mais seria a mesma pessoa. Sabia que viveria experiências que me dariam uma visão especial do mundo e da humanidade.

Passei 42 dias na Europa, conheci mais de 80 pessoas que respiravam o mesmo ar que motiva um voluntário. Alguns iniciavam suas missões, outros retornavam de longos períodos fora de casa, outros faziam essa rotina pelo décimo ano. Foi uma imersão em ideais que julgo carregarmos desde a infância, mas que muitas vezes o cotidiano nos faz esquecê-los. Ainda mais no contexto ocidental da mercantilização dos serviços médicos, das empresas médicas, um ambiente completamente diferente.

Em Berlim, através do curso de Aids internacional, tive contato com a pandemia na África subsaariana e o milagre que MSF vem fazendo com os preços dos anti-retrovirais, que hoje têm um custo de US$160 paciente/ano, provando que é possível implementar tratamento em regiões de poucos recursos como Moçambique. No entanto, nosso grande desafio aqui não é somente a falta de recursos econômicos, mas a falta de capital humano, como repercussão de 20 anos de guerra civil. Hoje, Moçambique conta com 600 médicos para 19 milhões de habitantes.

Minha missão tem base na cidade de Tete, no interior do país, mas meu campo de ação estende-se por todo o distrito de Moatize até Zobuéw na fronteira com o Malauí. Sou responsável por coordenar um Hospital de Dia de HIV/Aids (30 mil pessoas na área de abrangência) e um centro de saúde em Zobué (80 mil pessoas). Nesta área, a prevalência de HIV é de 25% ou seja, uma em quatro pessoas está contaminada, e diferente de outras partes do mundo, aqui 65% são mulheres de até 28 anos.

Para se ter uma idéia da fragilidade do sistema de saúde do pós-guerra no país, só no ano passado foram registrados mais de sete mil casos de sarampo e mais de cem casos de tétano neonatal, doenças que dificilmente vemos no Brasil. A cobertura vacinal das crianças aqui não chega a 60%, enquanto no Brasil chega a 99%. Temos também ciclos sazonais de cólera em todo o país, além claro, da malária com mais de três milhões de casos por ano, a maioria formas mais graves principalmente em crianças.

Neste contexto e sob um sol de 41 graus, fui recebida pelos coordenadores da missão e até mesmo pelo diretor distrital (Governador da província), dando-me as boas vindas ao belo e triste Moçambique, que registra cerca de 500 contaminações de HIV por dia, mais de 400 mil órfãos da Aids e quase meio milhão de mortes desde o início dos registros, ou seja é uma emergência humanitária, que põe um país inteiro sob a perspectiva de um futuro mutilado.


Por: Raquel Yokoda

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