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Samuel Elias

Administrador

Samuel Elias, administrador brasileiro, conta sua primeira experiência com MSF

PARTE 1 - 20 de abril de 2007, Murambinda, Zimbábue. 
 


Depois de uma noite muito bem dormida, acordo para mais um dia de trabalho.

Meu nome é Samuel de Oliveira e atualmente moro em Murambinda, um pequeno vilarejo localizado a 240 Km de Harare, capital do Zimbábue. Em Harare funciona nosso centro de operações, onde passei uma semana tendo briefings (instruções) sobre meu novo
 
  trabalho e conhecendo todos da minha equipe. Nossas equipes são divididas em capital e campo. A capital é responsável não somente pelo abastecimento de equipamentos e fundos, mas também pelas decisões estratégicas e negociações governamentais. Já a equipe de campo bota a mão na massa!!! Visita pacientes, faz a distribuição de medicamentos, etc.

Nossa pequena (porém confortável) casa em Murambinda é ocupada por três pessoas: uma dinamarquesa chefe da equipe de campo, uma coordenadora de logística e eu, que trabalho nas áreas de administração e finanças (mas também tenho um pezinho na logística!). Também temos um simpático coordenador médico de Serra Leoa, a quem chamo de ''o bom doutor'', mas ele mora com sua família em uma outra casa. O melhor de nossa casa com certeza éa paisagem da varanda frontal, que começa em uma rua de areias brancas e acaba na dourada savana. Logo no horizonte temos alguns poucos montes rochosos. Hoje eu perdi o café da manhã com as meninas, pois enrolei um pouco na cama. Com o tempo contado, coloquei um pedaço de pão com mel na boca, peguei minha mochila com meu computador e fomos de jipe até o escritório.

Esta semana é particularmente especial, pois estamos finalmente terminando os preparativos para inaugurar nosso novo escritório, no qual expandiremos nossos trabalhos de descentralização de medicamentos. Atualmente nosso projeto tem três objetivos:

- Entrega de medicamentos (principalmente anti-retrovirais) em boa parte de nosso distrito (compreende um total de seis cidades), processo o qual chamamos de descentralização;
- Programa de nutrição e acompanhamento para crianças soropositivo;
- Preparação de emergência para surtos de cólera (mais para o fim do ano, nas estações chuvosas).

Contamos com cerca de 30 funcionários nacionais que trabalham conosco, e particularmente gosto muito desta integração com eles. As pessoas aqui são muito amistosas e queridas. Devido a um ótimo programa de educação do governo, todos falam inglês, deliciosamente carregado de um forte sotaque.

Hoje, efetuamos os pagamentos dos salários de todos os funcionários, e como em qualquer lugar do mundo isso da um trabalho tremendo! Quando terminamos já estava escuro e havia passado da hora de ir para casa. Mesmo assim, ao chegar em casa, ainda havia uma pequena tarefa a ser cumprida. Sentei em minha poltrona predileta na varanda e comecei a ler alguns currículos. Haviam sido enviados para concorrer as vagas de segurança e para cozinheira, que abrimos buscando atender as necessidades do novo escritório. Me senti triste, pois recebi cartas de motivação de professores, ex-gerentes de banco e outros profissionais muito bem qualificados.

Cartas amareladas em papel de caderno, extremamente humildes e sinceras. Dentre os quase 20 currículos que recebi separei dois, de um pai de família desempregado e de uma jovem mãe soropositiva. Para ser bem sincero, acho que no final das contas não estava nem mais tão preocupado em buscar o profissional mais qualificado, mas sim quem precisava mais de ajuda.

Como é de costume, mais uma vez estamos sem luz em nosso vilarejo. Jantar a luz de velas aqui não tem conotação romântica nenhuma, mas sim pura e simplesmente é uma questão de acertar a comida na boca!!!
 
 
Por: Samuel Elias

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