Igor Moraes, economista, conta sua primeira experiência com MSF na Libéria
PARTE 1 - 29 de agosto de 2007, Monróvia, Libéria.
Há dois meses, trabalho como coordenador financeiro do projeto de MSF-Bélgica na quente e úmida Libéria. Está sendo uma experiência fantástica, pois, por mais que se procure saber através de leitura ou imagens, nada lhe dá a dimensão da realidade vista com seus próprios olhos. O país inteiro teve sua infra-estrutura devastada pela guerra civil que foi de 1989 até 2003. Durante esse período, foram mortas 150 mil pessoas e uma em cada quatro (850.000 mil de um total de 3,4 milhões de liberianos) tiveram que se refugiar nos países vizinhos (Costa do Marfim, Guiné e Serra Leoa).
Energia elétrica e água foram as principais bandeiras levantadas pelos candidatos nas eleições passadas. Com isso, podemos ter uma noção de como anda a saúde e a educação. A presidente Ellen Johnson Sirleaf tem o apoio e respeito da maioria da população e já está conseguindo fazer algumas importantes mudanças como, por exemplo, providenciar alguns postes de luz elétrica em pontos mais movimentados, organizar a esfera estatal (empresas, instituições, etc) e, principalmente, combater a corrupção. Mas tudo é muito difícil devido à falta de recursos. Praticamente não existe indústria no país, com exceção da cervejaria e das plantações de borracha que, por interesses comerciais, resistiram à guerra.
Os projetos de MSF-Bélgica (um hospital pediátrico, duas clínicas, um estudo sobre a cólera e, além disso, uma equipe de atores pertencentes ao quadro de funcionários, que roda a cidade encenando peças educativas sobre violência sexual, higiene, malária, planejamento familiar, etc.), que contam com 15 expatriados e 350 funcionários locais, estão todos situados na capital, Monróvia. Apesar de um censo populacional (o primeiro em 20 anos) estar sendo planejado para 2008 e não haver, portanto, números exatos, estima-se que um terço da população liberiana viva na capital. Se olharmos para o mapa da Libéria, vemos que Monróvia representa uma parcela muito pequena do país, o que faz com que a alta densidade demográfica seja também um outro complicador da situação.
Como se não bastasse, a temporada de chuvas começou há algumas semanas e impressiona pela quantidade de água que cai. Posso afirmar, sem medo, que chove 50% do tempo, alternando entre chuvas pesadas e chuviscos. Diz-se que Monróvia é a segunda cidade mais chuvosa da África. Perde apenas para Freetown, capital da vizinha Serra Leoa. De onde vem toda essa água??? Prometi a mim mesmo procurar na internet a explicação técnica de tanta chuva por aqui...
Com as chuvas vêm as doenças e aumentam os números de atendimentos nos projetos. A saúde pública é tão precária que apenas MSF sozinha representa 70% do atendimento pediátrico de toda a capital. Números de 2005 mostram que o Estado era responsável por apenas 10% de atendimento médico-hospitalar de todo o país, sendo o restante oferecido por ONGs internacionais de ajuda humanitária e entidades religiosas. Acredita-se que esse número esteja em 15% atualmente.
Por: Igor de Moraes