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Débora Noal

Psicóloga

Débora Noal, psicóloga, conta sua primeira experiência com MSF no Haiti

PARTE 1 - 18 de novembro de 2008, Gonaïves, Haiti.
  
 
Ser Humano

Sete horas da noite, sentada na sala de reuniões após um dia alaranjado de sol latente e poeira vermelha constante, tenho a sensação de terem se passado 24 horas desde o momento em que levantei. Como todos os dias, acordei hoje às 06:00h da manhã, tomei um vigoroso banho de pingos e canecos ao mesmo tempo em que observei o movimento da porta, que não tem fechadura. Estou sempre atenta a qualquer sinal de alguém ter necessidades maiores que as minhas, já que compartilhamos dois banheiros numa casa de 15 pessoas. Passados meus cinco minutos de privacidade diária, dirijo-me ao café servido em mesas improvisadas com protetores de insetos para evitar maiores acidentes alimentares (sempre temos algum companheiro de trabalho afastado por um ou dois dias por motivos de “ Vida Privada”), o que nos faz perceber que não somos realmente tão resistentes quando acreditamos.

No café da manhã, fizemos regularmente um repasse para toda a equipe do que esta acontecendo na cidade, bem como as estratégias de cada coordenação: Equipe Médica, Equipe Psicossocial, Equipe de Distribuição de Água, Equipe de Promoção da Saúde, Equipe Logística, Equipe de Administração e Coordenação Geral. Antes, porém, da reunião diária, é servido um refogado de trigo integral com quiabo, molho picante e qualquer coisa indecifrável à moda haitiana que faz dele um prato especial e bastante nutritivo para enfrentar o dia. Como acompanhamento, sempre está presente um bom macarrão desprovido de molho, além do suco de laranja e do leite em pó sabor água, que com sorte conseguimos misturá-lo a um pouco do café que os italianos preparam diariamente em sua cafeteira expatriada.

A água que consumimos provém de uma das fontes que MSF construiu para a comunidade. Temos a maior distribuição/fornecimento de água de toda a cidade - as pessoas por aqui estão sem agua encanada, saneamento básico e luz elétrica. As ruas estão repletas de lama e a marca que a água dos ciclones que passaram há pouco mais de dois meses deixaram nas casas (que ainda continuam em pé) informa-nos que o nível da água em parte da cidade chegou aos três metros de altura.

O cenário que podemos avistar a cada dia alaranjado e sempre envolto em uma grossa e intermitente cortina de poeira, herança do ciclone, seguramente poderia ser inserido em um desses filmes antigos de faroeste. Encontramos pessoas cor de terra proveniente da poeira, roupas molhadas de um suor carregado de cheiro de gente, baldes cheios de água que saem dos pontos de distribuição do MSF que encontram lugar certo nas cabeças das mulheres e crianças que enfrentam a fila para abastecer suas casas de água para beber. Nas ruas, além da lama, existe muito lixo, carros virados pelo ciclone, pedaços de móveis, roupas, além do cheiro das matérias em decomposição e do esgoto que passa entre nós a todo instante. Caminhar pelas ruas estreitas entre os dejetos é realmente desolador, uma sensação de impotência frente à demonstração de força da natureza.

Nas ruas, a caminho do trabalho, não consigo até este momento entender como estes motoristas que conduzem carros/pequenos caminhões da década de 60, 70 carregados de pessoas, animais e mantimentos podem saber onde vão, uma vez que as ruas de terra e muitos buracos estão repletas de pessoas (boa parte delas utiliza máscaras ou lenços no rosto pela intensidade da poeira), cachorros, cabras, porcos, cavalos, motos e ainda sem sinalização alguma que informe ao infeliz condutor onde ele pode seguir. Aliado a este desastroso cenário, temos a possibilidade a todos instante de verificar que os motoristas dirigem na mão direita e na mão esquerda da rua, o que faz com que seus veículos assemelhem-se aos carros de bate-bate dos parques de diversão - com o agravante de estarmos na vida real e em pleno século XXI.

A aventura nas ruas se faz rotina no caminho para o trabalho. Nós, psicólogos, trabalhamos em parceria com a equipe médica, equipes de distribuição de água, promoção de Saúde, equipes de distribuição de comida, ONG’s e organizações que identificam pessoas que estão em sofrimento e necessitam de auxílio para reconstruir a vida. Nosso trabalho é realizado nas clínicas móveis (carros tracionados que levam consigo a possibilidade de fazer atendimento em escolas, albergues, campos de refugiados...), ali nós prestamos atendimento clínico de urgência e acompanhamento das pessoas que testemunharam o ciclone, por meio de escuta clínica, psicoterapia breve e acompanhamento psicossocial. Nas escolas, um dos membros da equipe capacita os professores em relação à influência de um ciclone na vida de um ser humano e que recursos podem ser utilizados na identificação das necessidades psicossociais deste, bem como cada um dos professores pode potencializar a utilização dos recursos existentes na comunidade. Nos mercados, feiras livres, fizemos a sensibilização sobre os efeitos do ciclone, estresse, ansiedade... Com a ajuda dos líderes comunitários e dos formadores de opinião. No hospital, priorizamos as pessoas que estão em adoecimento por causa do ciclone e pessoas violentadas sexualmente - até este momento, atendemos dez casos de crianças e mulheres violentadas sexualmente.

Meu trabalho consiste em coordenar uma equipe de quatro psicólogos haitianos que realizam um trabalho de escuta, atendimento, formação e auxílio na reconstrução dos planos de vida de gente que perdeu família, que perdeu casa, emprego, gente que deseja encontrar de novo uma trilha para continuar caminhando nesta vida cíclica, onde os ciclones se fazem presentes periodicamente. Faço ainda a exploração da cidade e tento perceber onde podem ser abertas novas frentes de trabalho que contemplem as necessidades da população de Gonaïves.

Passado um longo dia de trabalho em meio ao forte calor úmido, reunimo-nos novamente na base do MSF, onde temos o escritório, a casa onde parte da equipe dorme (eu inclusive) e onde fizemos as reuniões e refeições. Neste momento, estamos novamente todos a dividir experiências, com o cansaço nitidamente presente na face de cada um, ao mesmo tempo em que é nítida a sensação de ter cumprido mais uma parte do que nos propomos: ajudar a fazer um mundo um pouco mais humano. Neste momento do dia, chega de mansinho uma sensação de sentir de fato o que é ser Humano, com todas as sensações e significados que esta palavra pode carregar consigo.

É chegado o momento de dormir, em poucos minutos o gerador que nos fornece a energia para os equipamentos de comunicação, entre outras coisas, será desligado e preciso me apressar para conseguir tomar meu esperado banho de pingos e canecos ainda com a luz da lâmpada. E assim o dia termina: com uma sensação de alma lavada, embora o corpo nem tanto.

 
Por: Débora Noal

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