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Carla Satie Kamitsuji

Psiquiatra

Carla Satie Kamitsuji, psiquiatra brasileira, conta sua experiência com MSF

PARTE 1 - 01 de março, Attiak, norte de Uganda.

Cheguei em Uganda no final de janeiro. Esse é o início da minha primeira missão com Médicos Sem Fronteiras (MSF). É também a minha primeira vez no continente africano.

Sou paulistana, psiquiatra e fui recrutada em dezembro do ano passado para trabalhar com MSF. Tudo aconteceu mais rápido do que eu imaginava. Assinei contrato com MSF-Suíça. São cinco os centros operacionais: França, Bélgica, Holanda, Suíça e Espanha. Assim, passei antes em Genebra para reuniões (briefings) onde tive o prazer de conhecer o coordenador de saúde mental do escritório suíço, que é um psiquiatra brasileiro. Os programas em saúde mental dentro da organização são recentes e a presença de psiquiatras nas equipes de saúde mental é ainda mais recente. Depois passei por Kampala (capital de Uganda), Gulu (cidade onde fica a coordenadora do projeto Attiak), onde tive mais briefings, e, finalmente, no dia 24 de janeiro, cheguei em Attiak, onde ficarei sediada.

Uganda é um país com quase 28 milhões de habitantes, Índice de Desenvolvimento Humano(IDH) de 0,450 – na região norte esse valor cai para 0,339 - e expectativa de vida de aproximadamente 46 anos.

Após a independência da Grã Bretanha, em 1962, o país sofreu com instabilidade política e violência social. Entre 1962 e 1986, houve oito mudanças no governo, quatro delas através da força militar. O ditador Idi Amin ficou conhecido mundialmente por suas excentricidades e violência. Em 1986, o NRA (National Resistance Army), liderado por Yoweri Museveni, tomou o poder. Desde então, este é o governante do país. Ele foi formalmente eleito em 1996. Em 2006, Museveni ganhou as eleições pela terceira vez.

A região norte do país (maioria da população da etnia Acholi) tem sofrido com conflito crônico (“guerra”) entre forças do governo de Uganda (UPDF – Ugandan People’s Defense Force) e a milícia armada LRA (Lord’s Resistance Army) desde 1986. Essa guerra forçou a migração de milhares de pessoas, que passaram a viver em campos de “refugiados internos”, cujo termo correto é IDP (Internally Displaced People = população deslocada internamente).

Para “proteger” essa população do norte do país o governo oficializou esses campos. Assim, a única opção para a população dessa região foi se mudar para os campos, pois se permanecessem em suas casas, corriam risco de ataques tanto pelo LRA quanto UPDF que passou a considerar qualquer pessoa fora dos campos como sendo do LRA.

Desde 2004, o Comitê de Crimes internacionais (ICC) tem investigado crimes de guerra cometidos nos 20 anos de conflito entre LRA e governo de Uganda. Em outubro de 2005, o ICC expediu cinco mandatos de prisão para comandantes do LRA.

A segurança no norte do país melhorou após o cessar-fogo, assinado em agosto de 2006. Entretanto, há um risco das negociações de paz retrocederem e voltar ao conflito armado, pois o LRA não aceita mais que o governo sudanês continue a coordenar as negociações. LRA quer que as negociações passem para o Quênia, que não aceitou, ou África do Sul.
Vinte anos de conflito resultaram em deslocamento massivo da população, violência, seqüestro de crianças pelo LRA, acesso precário a serviços básicos, em particular, serviços de saúde.

Sou responsável pela coordenação da implantação de um programa de saúde mental num centro de saúde no subcondado de Attiak que fica num campo de IDP (25 mil pessoas) no norte do país, a 30 km da fronteira com Sudão. O principal objetivo é a integração da assistência à saúde mental na assistência primária. Com certeza será um desafio, ainda mais na psiquiatria, considerando-se a barreira da língua e diferenças culturais. Mas estou animada e motivada!
 
 
Por: Carla Satie Kamitsuji

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