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Nan Hsin

Médica

Nan Hsin, médica, conta sua primeira experiência com MSF na RDC

PARTE 1 - 14 de agosto, Kinshasa, República Democrática do Congo
  
 
Nada mais justo do que inaugurar esse diário me apresentando antes de tudo: meu nome é Nan Hsin, na verdade original de Formosa (um paroxismo?), mas morando no Brasil desde que me conheço por gente. Sou médica com dois anos de residência em Clínica Médica e caí no MSF parte por necessidade de trabalhar com ajuda humanitária, e outra por pura aventura!

Essa é minha primeira missão. Se existe alguém lá em cima, ele realmente gosta de mim porque não poderia ser melhor! Estou atualmente há um mês na República Democrática do Congo, na capital Kinshasa. Também bisbilhotava muito o diário de bordo dos outros, mas eu não consigo reter muita informação numérica, então não vou entrar em detalhes de quantos habitantes vivem aqui ou qual a superfície total do terreno. O que posso dizer é que é uma 'cidade grande', com seus restaurantes e boates, apesar de 80% da população ficar às escuras à noite e ela ser dominada por casas de ONGs e 4x4s da ONU.

Agora, ao que interessa: eu sou membro da Equipe Móvel de Intervenção (EMI), que faz parte do Pool de Urgência Congo (PUC). Trata-se de um programa que faz uma cobertura epidemiológica de todo território congolês através de três frentes, situadas em Lubumbashi (leste), Kinsangani (norte) e Kinshasa (oeste). Estes coletam dados sobre doenças com potencial epidêmico como sarampo, cólera e ebola e urgências como refugiados e conflitos - uma tarefa no mínimo trabalhosa, já que apenas poucas estradas são transitáveis por carros comuns e muitos lugares são totalmente desprovidos de meios de comunicação. Após avaliação de cada situação, as intervenções são realizadas pela EMI.

Quando cheguei aqui, parte da equipe estava numa campanha de vacinação e outra numa avaliação de diarréia. Aproveitando o fato de eu saber falar português, fui com a frente de Kinshasa avaliar a situação dos congoleses extraditados de Angola. Em dezembro do ano passado, MSF, através do PUC, testemunhou o modo inaceitável como era sido realizada a extradição de imigrantes ilegais que trabalhavam em minas de diamante, por serem considerados uma ameaça para o governo angolês atual - violência física e sexual em massa por parte da polícia. Viajei num monomotor a Tembo e de lá, quatro horas saltando num 4x4 a Kahungula, fronteira com Angola.

No caminho, muitos refugiados voltando para suas cidades natais a pé, carregando malas e filhos e dormindo em igrejas e ao relento. Apesar de poucos doentes, a maioria 'apenas' fatigado, encontramos um paciente com suspeita de meningite já inconsciente no centro de saúde, sem confirmação por falta de recursos e dependendo apenas de antibiótico. Dureza saber que não há muito o que fazer, já que ele não sobreviveria ao transporte e que no hospital de referência não existe nem oxigênio, quanto mais uma UTI.. Outro que faleceu provavelmente por contusão pulmonar, após apanhar de habitantes do vilarejo angolês por causa de um cinto. E alguns doentes com malária.

A fronteira propriamente dita é um riacho de oito metros de extensão, por onde cerca de 850 congoleses eram transportados em botes todo dia desde 26 de maio. A operação desta vez é conduzida por militares e sem tanta violência, apesar de toque vaginal sistemático à procura de diamantes, roubos de pertences e falta de comida durante a viagem. Voltamos pouco confortáveis com a situação, embora nenhuma ação concreta possa ser feita por MSF, exceto alguns kits de medicamentos doados e denúncia da situação, que é parte do objetivo de tantas palavras escritas aqui.
Continuamos em alerta e as últimas informações são de que o número de extraditados diminuiu para 500 por dia, ainda nas mesmas condições, previsto para acabar após as eleições de setembro.

Quanto a mim, partirei de novo amanhã, dessa vez para a campanha de vacinação de sarampo em Kansimba, parte do grande projeto da região de Katanga, onde todas as sessões de MSF atuarão, e o melhor, utilizando alguns documentos que eu andei desenvolvendo aqui! Todo trabalho de edição em word e excel valeram a pena!

Até o retorno, e com certeza com mais novidades congolesas!


 
Por: Nan Hsin

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