Elaine Teixeira, psicóloga, conta a sua primeira experiência com MSF em Moçambique
PARTE 1 - 29 de fevereiro, Moçambique
Sou psicóloga e trabalhei como voluntária em uma organização chamada de GIV (Grupo de Incentivo à Vida) durante aproximadamente dez anos. Esta ONG oferece apoio a pessoas que vivem e/ou convivem com HIV/AIDS e durante esse período estive trabalhando no departamento de saúde mental e projetos da instituição. Não podia contar minha história com MSF sem falar do que me impulsionou para o trabalho humanitário. Certamente foram anos de trabalho voluntário no GIV.
Entretanto, estava em um momento de buscar desafios novos e tinha muita vontade de continuar o trabalho voluntário ajudando outras pessoas. Eu achava que uma oportunidade em outro contexto, outro país, seria muito enriquecedora. Fui então ao site da MSF Brasil indicado por uma amiga que me dizia: “Esse trabalho é a sua cara!”.
Ao entrar no site de MSF, tive a seguinte sensação: “é isso que quero fazer agora, trabalhar com MSF em missões de ajuda humanitária!”. Quando percebi que havia uma possibilidade de continuar na área do HIV/AIDS foi ainda mais motivador. Sabia que a experiência em outro país iria me dar muita coisa, uma experiência inesquecível e especial. Além disso, iria poder trocar aquilo que havia aprendido sobre o apoio psicológico e social a pacientes soropositivos. Tudo parecia um sonho.
Eu pensava que seria muito difícil entrar para MSF, pois, como uma organização majoritariamente médica, ainda não tendo muita cobertura em projetos que envolviam atividades de saúde mental, não haveria de ter muitas vagas para psicólogos. Mesmo com essa idéia pré-concebida eu não desisti, pois sabia que os programas de HIV/AIDS teriam obrigatoriamente este componente. Então fui buscar uma oportunidade!
Foi exato um ano, desde o meu primeiro acesso ao site da MSF Brasil, algumas ligações para o escritório no Rio de Janeiro, até surgir vagas para psicólogos (as). No começo eu entrava todos os dias no site. Depois que entendi que não abriam vagas a cada dia (risos), espacei minhas buscas para uma semana e comecei a observar que MSF Brasil já começava a contratar profissionais (médicos, enfermeiros e outros) para trabalhar no exterior.
A grande surpresa foi em fevereiro de 2006, quando abri o site as quase 1h da manhã e vi vaga “outros profissionais”; (link) para Psicólogo (a) com experiência em HIV/AIDS; (link) para a descrição de tarefas...Quando li a descrição do perfil tive a certeza que poderia realizar aquelas tarefas descritas no site!!! Foi uma sensação incrível, não posso encontrar palavras para descrever. Só sei que meu coração batia forte e na mesma hora atualizei meu CV e enviei ao e-mail de Recursos Humanos. Depois disso, muita troca de e-mails com Ana Cecília (recrutadora), envio de carta de motivação, documentos técnicos, e algumas ligações. Acho que Ana não podia acreditar na minha perseverança (risos).
Fui à luta para ser escolhida para trabalhar com MSF e consegui!!! Não tenho como descrever a emoção quando Ana Cecília me ligou para dizer: “Olha Elaine, nós queremos muito que você venha trabalhar com MSF.” E mais: “Nós já queremos convidá-la para uma missão".Que arrepio!. Ela falou Moçambique, mas eu não ouvi mais nada naquele momento.
Juro não sabia se chorava de emoção ou se desligava o telefone e ia contar a toda a gente que eu havia sido escolhida para trabalhar com MSF em uma missão humanitária.. Enfim, ao mesmo tempo em que podia ouvir Ana, também não podia. Foi uma sensação muito especial de conquista e merecimento, pois desejei muito ser aceita por MSF.
Começou então uma mistura de sentimentos, desapego do Brasil, da minha cidade, do GIV, da minha família e amigos e uma grande motivação para novas possibilidades de trabalho e aprendizado. Como diz uma amiga: “A vida é cheia de possibilidades!!!”.
Como estava seguindo para um projeto de HIV/AIDS, MSF sugeriu uma formação e fui a Genebra para um treinamento em HIV/AIDS durante duas semanas. Lá comecei a conhecer um pouco o que era MSF e sua magnitude.
Um pouco sobre a missão e o que faço aqui
Estou aqui em Moçambique desde junho de 2006. Aqui sou responsável pela coordenação das atividades psicossociais de três projetos de MSF. Dois na capital de Maputo e um em Niassa, outra província no norte do país. Tenho sob minha responsabilidade a coordenação e reestruturação do trabalho psicossocial, que envolve a educação e preparação dos pacientes para a realização do teste HIV, mas também o preparo para o início do tratamento e seguimento da adesão desses pacientes. São ao todo na equipe psicossocial 32 pessoas, entre conselheiros, psicólogos e ativistas que apóiam muito a educação dos pacientes sobre HIV/AIDS. Estamos trabalhando para melhorar a adesão dos pacientes ao tratamento anti-retroviral (Tarv) e ao mesmo tempo promover uma melhoria na qualidade de vida dos pacientes.
A prevalência no país apesar de parecer estável desde o último boletim, ainda é alta: 16% da população tem HIV/AIDS, e em Maputo são 23%. Os esforços são grandes para garantir o tratamento a todos que necessitam, seja da parte do governo seja através dos doadores internacionais. Há muitas organizações internacionais trabalhando em Moçambique, mas é certo que MSF tem projetos que são referência no país no aspecto da qualidade do cuidado aos pacientes soropositivos.
A equipe psicossocial tem um papel importante, pois é ela diretamente que prepara as pessoas para fazer o teste e depois, para os que atendem aos critérios, prepara-os para iniciar o tratamento. Um tratamento que é para a vida toda e que deve ser tomado com rigorosidade. No entanto, aqui a cultura não ajuda para que os pacientes sigam o tratamento com boa adesão e conseqüentemente tenham uma boa qualidade de vida. Tudo porque não é de praxe ir ao Hospital, mas sim aos curandeiros. Não é comum tomar medicamentos para a vida toda, mas sim tomar os medicamentos tradicionais que curam as enfermidades. Tudo isso para resumir o grande paradoxo que complica a percepção dos pacientes acerca da sua própria doença, mas que também dá para a equipe uma necessidade de olhar de modo individualizado, tentando fazer com que cada paciente perceba a doença de modo a tornar-se mais responsável pelo seu auto-cuidado e principalmente seguir com boa adesão o Tarv.
Trabalhar com MSF tem sido uma experiência incrível. Aqui tenho a oportunidade de trabalhar a nível multidisciplinar e tenho muita colaboração da equipe médica e da coordenação geral e médica do projeto.
Não é possível relatar em poucas linhas a linda experiência que estou tendo com MSF em Moçambique. Confesso que tenho orgulho de trabalhar para esta organização e que, por perceber a possibilidade de novas tarefas e de uma melhoria no aspecto do psicossocial, decidi, a convite da coordenação, estender meu contrato. Então fico até pelo menos dezembro de 2008.
Para além disso, vale a pena dizer que é muito bonita a experiência de trabalhar com pessoas de diferentes países, com idéias e percepções diferentes, que ao mesmo tempo que implicam em compartilhar e somar, implicam também em ceder, abrir mão e aprender com o outro.
Fico por aqui!!! Com Moçambique, com a diversidade e aprendo aqui a aplicar meus conhecimentos como psicóloga, mas também como pessoa, interessada na ajuda humanitária, em ajudar a suprir algumas das necessidades do povo moçambicano, vitima dessa pandemia que faz a cada dia mais e mais afetados e mais pessoas necessitando de tratamento e cuidados para melhoria da saúde mental e física.
Por: Elaine Teixeira