Pensando em modelos alternativos para estimular inovação e garantir o acesso
Com nossas equipes médicas ansiosas por novas e melhores ferramentas para garantir um melhor cuidado, precisamos trabalhar de forma criativa e usar a imaginação dentro das limitações do atual modelo de estímulo à inovação.
Por esta razão, a CAME continua acompanhando de perto as negociações entre os países membros da OMS sobre inovação e também tenta trazer as necessidades de nossos pacientes para o centro do debate sobre identificação de modelos alternativos.
Algumas das propostas de modelos que estão em discussão:
Parcerias de Desenvolvimento de Produtos (PDPs)
Durante os últimos anos, algumas parcerias de desenvolvimento de produtos (ás vezes chamadas de parcerias público-privadas ou PPPs) vêm sido criadas para desenvolver novos medicamentos, testes de diagnóstico, e vacinas para doenças negligenciadas. Exemplos incluem a International AIDS Vaccine Initiative (Iniciativa Internacional de Vacina para AIDS em português), Medicines for Malaria Venture (Ventura Medicamentos para Malária em português), ou a Global Alliance for TB Drug Development (Aliança Global para o Desenvolvimento de Medicamentos para TB em português). A emergência de PDPs oferece um interessante, novo modelo: os custos de P&D estão sendo pagos diretamente e não são mais financiados por uma companhia farmacêutica, como no modelo atual, através de altos preços dos medicamentos e patenteamento rigoroso. Este novo modelo irá permitir que produtos resultantes sejam vendidos a preços mais próximos aos preços de custo. Um relatório recente da London School of Economics (universidade e fundação de economia inglesa) traçando o futuro de P&D para as doenças negligenciadas estima que, baseado nos mecanismos atuais e assumindo os atritos comuns, PDPs poderiam lançar oito ou nove novos medicamentos ao mercado nos próximos cinco anos. A Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi em inglês) fundada por MSF e outros seis parceiros é uma dessas parcerias. Em 2007, graças a uma nova estratégia radical de desenvolvimento de medicamento, a DNDi lançou seu primeiro produto: uma combinação de dose fixa simples, a um preço accessível, e efetiva no tratamento da malária, combinando dois medicamentos anti-malária (artesunato e amodiaquina) em uma única pílula. Mas o sucesso das PDPs depende da arrecadação de fundos suficientes para dar continuidade aos projetos até a materialização de seus objetivos. Atualmente, as PDPs não conseguiram assegurar financiamento para seus projetos existentes; e à medida que eles adotam mais projetos e mais compostos promissores estão indo para ensaios clínicos, suas necessidades de financiamento estão aumentando significantemente. Sem isto, candidatos existentes a novos medicamentos para pacientes negligenciados vão permanecer onde estão – presos no mecanismo.
Modelo de prêmios
Prêmios são utilizados como incentivos para a inovação há séculos. A idéia é que um valor – a qual poderia contribuir governos ou empregados, as mesmas entidades que pagam por seguros de saúde ou programas de saúde pública – seria dado como recompensa aos responsáveis pelo desenvolvimento de um medicamento. Quanto maior capacidade do produto em enfrentar um desafio especifico de saúde, maior seria o prêmio. A vantagem de usar um fundo de prêmios é que há o estímulo de P&D sem depender da venda de medicamentos para financiar o desenvolvimento de medicamentos. Este modelo também permite que governos priorizem P&D e encaminhem estas iniciativas para as áreas de maior necessidade médica.
Tratado de P&D
Em meio ás discussões atuais da OMS, muitos países em desenvolvimento estão urgindo a criação de um tratado global de P&D. Este tratado seria essencialmente um mecanismo para garantir financiamentos maiores e mais sustentáveis para o financiamento de P&D em áreas essenciais de saúde. Ele garantiria que todos os governos contribuiriam com o pagamento da inovação médica, de maneira que haveria a garantia de disponibilidade de fundos e capacidade de financiamento.
Trabalhando com a indústria
À medida que as discussões políticas da OMS progridem em direção a uma estrutura alternativa de P&D, companhias farmacêuticas irão precisar decidir de qual lado elas irão se posicionar. Existem sinais de que algumas companhias estão dispostas a explorar novos meios de serem recompensadas por seus financiamentos em P&D, meios estes que não fecham automaticamente a porta para o mundo em desenvolvimento. Em um simpósio de MSF sobre o desenvolvimento de medicamentos para TB em janeiro de 2007, representantes de várias grandes companhias farmacêuticas aprovaram uma declaração apoiando debates da ONU buscando uma nova estrutura de P&D. Tal estrutura iria responder à questão de quem paga por P&D essenciais na área médica, desvinculando incentivos de preços de medicamentos e recompensas à inovação. As companhias precisam se engajar de maneira construtiva neste esforço de explorar novas maneiras de recompensar investimentos em P&D que não são tendenciosos contra o mundo em desenvolvimento. Com um número crescente de disputas de patentes acontecendo no mundo, e um aumento da preocupação governamental de que o sistema atual não está correspondendo às expectativas, é do interesse de todos de que novos mecanismos sejam encontrados, e rápido.
Casos que MSF acompanha de perto
Vejam alguns exemplos de necessidades e modelos para inovação e acesso que MSF vem acompanhando de perto:
Pool de patentes:
trata-se de um modelo que visa enfrentar os problemas de acesso e inovação. Se as empresas detentoras dos medicamentos colocarem suas patentes no pool elas podem possibilitar que outras empresas e instituições obtenham licenças, mediante pagamento de royalties, e produzam versões genéricas a preços mais acessíveis ou então que desenvolvam formulações extremamente urgentes e necessárias às populações dos países em desenvolvimento, como combinações em doses fixas e formulações pediátricas. O Conselho da Central Internacional de Medicamentos – conhecida pela sigla Unitaid – aprovou a criação da Fundação para o Pool de Patentes para Medicamentos, prevista para ser lançada em julho de 2010. Inicialmente, o trabalho será voltado para medicamentos de Aids. Veja atualizações do processo. Assista à animação desenvolvida por MSF e entenda como o pool poderia ser importante no acesso a medicamentos.
Tuberculose:
a Campanha de Acesso está lutando para que seja desenvolvido um teste para TB in locu que permita diagnosticar de forma precisa crianças e pacientes coinfectados com HIV, além de estar trabalhando para a ampliação do acesso ao tratamento para as pessoas que vivem com tuberculose multirresistente a medicamentos (MDR-TB).
Veja os motivos pelos quais um teste para TB é urgente.
Quais são os requisitos mínimos para um teste ideal de TB? MSF se reuniu com especialistas de várias áreas para compartilharem suas experiências e chegaram a um consenso sobre uma série de especificações para um teste ideal. Conheça mais sobre os resultados deste encontro.
Novas faces de uma velha doença: a difusão da tuberculose em populações já infectadas pelo HIV e o aparecimento de cepas multirresistentes a medicamentos vêm se tornando um dos maiores desafios médicos. Leia o documento.
MSF vem discutindo em diferentes espaços internacionais que a proposta de um fundo de prêmios, como um exemplo de desvinculação do custo da P&D do preço final dos produtos, pode ser um caminho para estimular o desenvolvimento desta tecnologia.