Desafios Atuais
Essas são algumas das lacunas em inovação médica que as equipes de MSF enfrentam quando tentam levar cuidados aos pacientes:
Medicamentos e diagnósticos para crianças
Em geral, tratamentos, vacinas e diagnósticos pediátricos são drasticamente pouco pesquisados. A lacuna existente entre as necessidades e os medicamentos disponíveis é fortemente evidente no tratamento de HIV/AIDS: como poucas crianças são infectadas pelo HIV nos países ricos (quase 100 crianças são infectadas na Europa ou América do Norte a cada ano, comparando com as 560.000 infectadas na África), as empresas farmacêuticas não têm um incentivo econômico para desenvolver medicamentos ou testes que funcionem para crianças. Como resultado, muitos antirretrovirais nunca foram testados em crianças. Testes de diagnóstico também são, infelizmente, inadequados para elas; ainda não exista uma forma simples de descobrir se uma criança está infectada com HIV/AIDS.
Tuberculose
TB – considerada por muito tempo uma doença de populações pobres, mas atualmente sob controle nos países ricos – é uma das grandes causas de morte nos países em desenvolvimento. No entanto, os medicamentos utilizados hoje foram desenvolvidos há quase 50 anos e não conseguem controlar a doença de forma efetiva. Medicamentos de primeira linha devem ser tomados por pelo menos seis meses, e por isso muitos pacientes acabam parando de tomá-los antes de terminar o tratamento. Isto leva ao desenvolvimento de formas mais resistentes da doença, que são ainda mais difíceis de tratar, levando o paciente a ter que tomar medicamentos tóxicos com terríveis efeitos adversos e que em muitos casos precisam ser isolados no hospital por meses.
Os testes para detectar a TB também são completamente inadequados. O teste comumente usado para TB tem 125 anos desde sua criação, só detecta certos tipos da doença e isto em apenas 45% a 60% dos casos.
Coinfecção de TB e HIV/AIDS
A tuberculose e o HIV/AIDS se unem para criar um efeito devastador. A tuberculose se tornou uma das principais causas de morte de pessoas vivendo com HIV/AIDS. Mas como esta é uma preocupação em grande parte dos países em desenvolvimento, nós ainda não temos um teste de TB que seja confiável e simples o suficiente para ser utilizado em pacientes soropositivos. Além disto, alguns dos antirretrovirais usados para tratar HIV interagem mal com medicamentos anti-TB e por isso os médicos não podem tratar com ambos os medicamentos ao mesmo tempo.
Outras infecções sexualmente transmissíveis
340 milhões de infecções sexualmente transmissíveis ocorrem todo ano. Tratamentos simples e efetivos existem, mas muitos não estão recebendo estes tratamentos por causa da falta de testes de diagnóstico simples e confiáveis.
As doenças mais negligenciadas
Existem muitas outras doenças além de TB e HIV que recebem pouquíssima atenção da industria farmacêutica, chamadas aqui de as “doenças mais negligenciadas”:
Doença do sono:
60 milhões de pessoas correm o risco de contrair a doença do sono ou tripanossomíase humana africana. Diagnosticar essa doença fatal requer uma punção lombar, um procedimento muito complexo para ser realizado nas unidades de saúde existentes nos países afetados. Muitas vezes, o tratamento também é extremamente inadequado, já que o medicamento comumente usado para tratar esta doença tem como base um derivado altamente tóxico de arsênio, usado desde 1940, mas que é tão tóxico que mata um a cada vinte pacientes. Um medicamento melhor existe, mas seu uso é muito complexo para ser adequado a ambientes escassos em recursos. Não houve nenhuma melhora significativa no tratamento da doença do sono nos últimos 50 anos.
Calazar ou leishmaniose:
A leishmaniose mata 60.000 pessoas todo ano, mas o tratamento com antimônio, desenvolvido na década de 30, se mantém como a principal terapia, independente de seu caráter tóxico e seus efeitos adversos. O tratamento também é inadequado porque as injeções precisam ser dadas durante quatro semanas; período que impede muitos pacientes de completar o tratamento. A leishmaniose se torna uma doença ainda mais fatal quando combinada com HIV, já que cada infecção gradualmente diminui a imunidade do infectado e piora o impacto da outra. Trata-se de uma doença muito difícil de diagnosticar e tratar e mais da metade dos que recebem tratamento sofrem recaídas.
Doença de Chagas:
A doença se encontra principalmente no continente Americano e pode causar cerca de 14.000 mortes por ano. Testes para detectar a doença existem, mas precisam ser incorporados no âmbito da atenção primária para que os casos possam realmente ser identificados. Em função da falta de disponibilidade das ferramentas existentes para diagnóstico – ainda que limitadas – e pelo caráter silencioso da infecção (muitas pessoas podem ficar anos assintomáticos e apenas 30% desenvolvem a forma clínica) a doença é geralmente é diagnosticada quando os pacientes apresentam complicações como problemas cardíacos, digestivos e outros. Os únicos dois medicamentos disponíveis para o controle do parasita T.cruzi, nifurtimox e benznidazol, foram desenvolvidos nas décadas de 60 e 70.