| Num país marcado pela desigualdade social e pelo aumento dos índices de pobreza nas últimas décadas, o Rio de Janeiro, como outras grandes cidades brasileiras, assiste a um crescimento do número de pessoas morando nas ruas, desabrigadas e cada vez mais excluídas socialmente.
Buscando
oferecer uma melhor qualidade de vida para essas pessoas, com um
processo de escuta diferenciado das demandas desta população e encaminhando
os casos de saúde e psicossociais aos serviços públicos existentes,
Médicos Sem Fronteiras deu início, no ano 2000, ao projeto
Meio-fio. O projeto também desenvolveu, ao longo desses quatro anos
e meio, atividades de sensibilização para reduzir o nível de preconceito
tanto da sociedade, quanto dos profissionais dos serviços públicos.
Ao longo desse período, uma equipe multidisciplinar de MSF
– formada por médicos, enfermeiros, psicólogos,
assistentes sociais e educadores de rua – percorria as ruas
do centro do Rio de Janeiro abordando os beneficiários na
própria rua, oferecendo uma assistência primária
no local, e, quando necessário, encaminhando-os para os serviços
existentes.
Atividades realizadas
A
proposta de MSF nunca foi a de substituir o poder público
local, mas estimular uma atenção diferenciada das
autoridades municipais, estaduais e federais a esta população
tão marginalizada. Por isso, concomitantemente a um trabalho
de sensibilização dos profissionais de saúde
e das autoridades locais, MSF forneceu instrumentos para que a população
em situação de rua pudesse ser auto-suficiente na
busca pelos seus direitos.
Durante o funcionamento do projeto Meio-fio foram distribuídos
2000 guias de serviços com endereços úteis
e informações relevantes sobre os serviços
públicos e gratuitos oferecidos na cidade do Rio de Janeiro.
Além disso, MSF disponibilizou um guia de procedimentos aos
profissionais de instituições públicas; realizou
em parceria com outras instituições dois seminários
sobre a população em situação de rua;
promoveu oficinas e palestras de sensibilização para
profissionais de instituições públicas; participou
da formação de uma rede de instituições
capaz de oferecer assistência e defender a elaboração
de políticas públicas; fundou - em parceria com outras
entidades públicas e não governamentais - a Comissão
Permanente de Monitoramento das Políticas Públicas
para a População em Situação de Rua,
que funciona até hoje dentro da Prefeitura Municipal do Rio
de Janeiro; realizou uma exposição fotográfica
para sensibilizar a sociedade sobre as dificuldades enfrentadas
por esta população; entre tantas outras atividades.
Clique aqui
e confira a exposição fotográfia Sua Rua,
Minha Vida.
Denúncias sobre desrespeito
MSF também denunciou às autoridades locais e às
diversas comissões de Direitos Humanos do país, situações
de desrespeito e brutalidade testemunhadas ao longo desses anos
pela equipe do projeto Meio-fio. Guardas Municipais, acompanhados
de caminhões da Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana da Cidade
do Rio de Janeiro), realizam com freqüência uma operação
conhecida como Cata-tralhas, para recolher os pertences dos moradores
de rua. Esta operação tem conseqüências
sérias, já que, além de recolher o lixo deixado
nas ruas por essa população, recolhe também
medicamentos, roupas, instrumentos de trabalho e objetos pessoais
como documentos e fotografias. Além do desrespeito, essas
operações contribuem para piorar os já sobrecarregados
serviços públicos oferecidos, uma vez que os moradores
de rua retornam aos serviços para requisitar novamente os
medicamentos, os exames e os documentos recolhidos.
Depoimento
“Hoje, os Médicos Sem Fronteira são a minha
família. Como é que pessoas, um grupo, uma organização
não governamental acolhe com tanto carinho as pessoas em
situação de rua, e trata delas? Eu tenho que ter carinho
comigo mesmo para ser digno do carinho que dão para mim.
Então, acho que a primeira coisa para sair desta situação
é se amar, e eles me mostraram o caminho do amor”.
Lísias Valério Bergo, beneficiário
do projeto Meio-fio. |