| Em janeiro de 2002, o nordeste de Minas
Gerais foi atingido por fortes chuvas que causaram a cheia dos rios
Jequitinhonha e alguns afluentes, deixando cidades isoladas e milhares
de pessoas desabrigadas. Uma equipe de Médicos Sem Fronteiras
(MSF) foi enviada ao Vale do Jequitinhonha para avaliar a situação
e estudar a possibilidade de intervenção. A aproximadamente
800 Km de Belo Horizonte, os municípios atingidos tiveram
acesso ainda mais restrito com a queda de pontes e interdição
de estradas.
Médicos Sem Fronteiras visitou os municípios de Rubim,
Jacinto e Almenara, e pôde constatar a precariedade dos recursos
governamentais para lidar com a emergência. Em 43 municípios,
foi decretada situação de emergência e em 25,
estado de calamidade pública. As famílias desabrigadas
e desalojadas foram acolhidas em escolas municipais e estaduais.
Os estoques de medicamentos essenciais de Rubim e Jacinto eram escassos
e, com o advento das chuvas, o risco de epidemias torna-se ainda
maior.
Diante da dificuldade das autoridades locais em responder à
catástrofe e da inexistência de outras instituições
capazes de prestar socorro às vítimas da enchente,
Médicos Sem Fronteiras decidiu então intervir no Vale
do Jequitinhonha. Foi enviada ao local uma uma equipe multidisciplinar,
composta por 3 enfermeiros, uma psicóloga e uma responsável
logística, que atuou nos municípios de Rubim, Jacinto,
Almenara e Sta. Maria do Salto, identificados como locais de maior
necessidade de apoio.
As consultas de enfermagem se concentraram no município
de Jacinto e seus distritos – Bom Jardim, Jaguarão
e Avaí. Além do atendimento nas unidades de saúde
locais e das vistas domiciliares, foram realizadas atividades de
sala de espera, que abordaram temas como hanseníase, leishmaniose
e aleitamento materno. O trabalho possibilitou o levantamento dos
problemas mais comuns da região, como alta incidência
de verminose e de hipertensão, além das deficiências
estruturais do sistema de saúde local.
O atendimento psicológico se concentrou na cidade de Rubim.
Durante o trabalho, foram detectados tanto problemas pontuais, decorrentes
do trauma da enchente, como problemas pré-existentes, que
haviam sido potencializados pela vivência da crise. Além
de atendimentos individuais, foram feitos trabalhos também
com casais, famílias e em grupos. Com as crianças
que estavam abrigadas em uma escola local, foram desenvolvidas atividades
lúdicas, que incluíram jogos e brincadeiras, além
de um grande desenho coletivo, através do qual as crianças
puderam representar situações emocionais.
Além do apoio profissional, MSF também enviou ao
local 400 caixas de suprimentos de saúde, contendo uma variedade
de 120 itens, desde de medicamentos básicos a material hospitalar.
Uma responsável logística, enviada por MSF, supervisionou
e coordenou a entrega do material às secretarias municipais
de saúde da região, assim com a distribuição
de 390 kits de higiene, enviados às famílias desalojadas
e desabrigadas pela enchente.
Um dossiê sobre a falta de resposta do poder público
também foi preparado e enviado às autoridades responsáveis,
na tentativa de que sejam tomadas medidas concretas que resolvam
os problemas de saúde e moradia das vítimas da enchente
no Vale do Jequitinhonha. A intervenção emergencial
de Médicos Sem Fronteiras no Vale durou 9 dias.
Depoimento
“No Vale do Jequitinhonha, há desigualdade social,
uma infraestrutura precária de saúde e a população
fica a mercê da ineficácia de ações de
saúde. Enquanto estávamos lá, as consultas
lotavam o dia inteiro sem intervalo. Quando chegávamos nas
cidades, as pessoas anunciavam no microfone da igreja: chegaram!”
Eriedna Barbosa, enfermeira de MSF que atuou
na enchente do Vale do Jequitinhonha.
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