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Iraque: “Nós estamos fazendo a diferença”

Dr. M (1), anestesista
Publicada em 22/03/2010 00:00

Apesar da difícil situação de segurança, uma equipe cirúrgica de MSF, composta por médicos iraquianos, começou a trabalhar no hospital geral de Hawijah em Kirkuk, no começo de janeiro. É a primeira vez desde o início da guerra que MSF é capaz de tratar diretamente os pacientes nessa parte do país. O anestesista da equipe, Dr. M (1), fala do impacto deste trabalho

Como MSF está providenciando assistência em Hawijah?
Nós somos uma equipe pequena, um cirurgião geral e eu. O problema no Hospital Geral de Hawijah era que não havia pessoal médico suficiente para dar conta do fluxo de emergências. Geralmente, os médicos vão embora por volta de 13h ou 14h da tarde. Todos os pacientes com necessidade de cuidados de emergência, todos os casos de trauma que chegam depois desse horário, tem que ser referenciados para a cidade de Kirkuk. Trata-se de uma viagem de 80 km, e a estrada é muito ruim, com cerca de 17 postos de controle a serem ultrapassados e muitos militares, ou seja, pode levar horas. É uma jornada muito longa para qualquer paciente em uma condição crítica. Já houve mulheres com emergências obstétricas fazendo esta viagem porque a ala de emergência do hospital Hawijah estava fechada. Ela também fechava de sexta a domingo – isso significa três dias sem nenhum cuidado de emergência para uma população de cerca de 450 mil pessoas, incluindo a cidade de Hawijah e os arredores.

Nestas circunstâncias, que diferença a pequena equipe de MSF pode fazer?
Desde que começamos nosso trabalho em janeiro, a ala de operações está agora funcionando intensamente o dia inteiro, menos de manhã. O resultado é que nós temos sido capazes de quase dobrar o numero de procedimentos cirúrgicos. Nossa equipe sozinha realizou cerca de 300 cirurgias desde o início do programa, com cerca de metade delas em pacientes emergenciais. Na maioria dos casos vemos apendicites agudas, cesarianas, reparação de hérnia e trauma agudo. Nós estamos realmente fazendo a diferença com as cirurgias que realizamos.

Quais são os principais problemas que vocês enfrentam trabalhando no hospital Hawijah?
Muitos dos instrumentos médicos que usamos são velhos e a manutenção do material durante os últimos anos não esteve de acordo com os padrões requeridos. Para dar um exemplo, o gerador não funciona de forma confiável e algumas vezes somos forçados a usar ventilação manual para a anestesia. Também faltam alguns remédios específicos e suprimentos, e nós ainda não temos nenhum obstetra trabalhando no turno da noite, ou profissionais mais especializados como neurocirurgiões.

É incrivelmente difícil para MSF levar assistência direta para a população iraquiana devido às condições ruins de segurança. Como o programa de MSF é visto pela população de Hawijah?
Muito bem, as pessoas estão realmente felizes com o novo horário de funcionamento da unidade de emergência. Você pode perguntar para qualquer um aqui na cidade, todo mundo sabe do envolvimento de MSF no hospital e as pessoas apreciam muito isso. Hawijah passou por violências terríveis desde 2003, especialmente em 2006 e 2007. Ver o hospital crescendo e MSF providenciando assistência significa dar às pessoas muita esperança. Eles sentem que as coisas estão avançando de novo.

(1) Por motivos de segurança, MSF não menciona o nome de seus profissionais a trabalho no Iraque

Apesar no conflito no Iraque, que dificultou a presença de organizações humanitárias no país, MSF está se esforçando para levar cuidados médicos ao povo iraquiano. Desde 2006, MSF tem implementado programas em diferentes partes do Iraque, como Anbar, Basra e em províncias do norte de Kirkuk e Ninewa, principalmente apoiando hospitais através do fornecimento de materiais médicos e treinamento. MSF também estabeleceu na Jordânia, um programa que oferece cirurgia reconstrutiva para feridos na guerra do Iraque.