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Terremoto no Chile: Entrevista com Logístico de MSF

Pierre Garrigou
Publicada em 18/03/2010 00:00

Pierre Garrigou é um logístico de MSF que trabalha com a organização internacional de ajuda médica Médicos Sem Fronteiras (MSF) na resposta ao recente terremoto no Chile. Nesta entrevista ele faz um balanço de sua experiência e da atuação de MSF no país

Você foi um dos primeiros membros de MSF a chegar ao Chile após o terremoto. Como a operação de resposta ao desastre foi organizada?
No mesmo sábado em que o terremoto foi sentido, por volta de meio dia, eu recebi uma ligação do escritório de MSF em Buenos Aires me chamando para integrar uma missão exploratória no Chile. Às seis horas da tarde, eu já estava voando de Buenos Aires para Mendoza, uma província argentina vizinha ao Chile. De lá, um ônibus nos levou até Santiago, onde nós chegamos na manhã seguinte.

Na chegada nós logo contatamos a coordenadora de MSF que já estava lá, em férias, quando o terremoto aconteceu. Havia muitos problemas com as linhas telefônicas, então encontrá-la foi difícil. A partir daí começamos a contatar profissionais chilenos que já haviam trabalhado anteriormente com MSF, e que mais tarde se juntaram a nossa equipe. Mais tarde discutimos como chegar às áreas próximas ao epicentro do terremoto.

Foi… Nós fomos para o Chile tão rápido que quase não tivemos informação sobre o que estava acontecendo. De acordo com redes de TV, a situação na costa estava muito ruim. Nós decidimos que seria melhor ir para áreas não tão próximas do epicentro, pois a maioria dos esforços de socorro estava concentrada na área mais afetada, Concepción.

Quais foram suas primeiras impressões?
Nós chegamos ao sul na tarde de domingo e na segunda-feira de manhã nós visitamos o hospital de Curicó, onde encontramos muitos médicos, mas, ao mesmo tempo, uma situação caótica. Na cidade, lojas estavam fechadas, redes de comunicação tinham caído e havia destroços por toda parte.

Conforme continuávamos seguindo, juntávamos informação sobre as condições das estradas. De Curicó partimos para a costa, em direção a Iloca através de Vichuquén.

Nos primeiros dias após o tremor, a costa era o local mais chocante. Você podia ver as pessoas no meio dos escombros, tentando achar seus pertences. Uma tristeza terrível estava no ar. As pessoas ficaram chocadas, andando com expressões totalmente em branco em suas caras: muitos haviam perdido tudo, até mesmo os entes queridos. A equipe médica estava estressada e sobrecarregada.

Que necessidades você identificou?
No interior, nas áreas afastadas da costa, havia muitas construções destruídas, muitos escombros. Mas na costa, tremores de terra foram complementados com tsunamis, que realmente devastaram tudo. Se sua casa tivesse sido atingida pelo terremoto você ainda poderia ser capaz de resgatar alguma coisa nos destroços. Mas na região litorânea as casas foram diretamente engolidas pelas ondas.

Muitas pessoas perderam tudo e estavam acampando em tendas improvisadas. Nas áreas litorâneas, pessoas temendo novos tremores fugiram para terrenos mais altos. Decidimos que uma das principais necessidades que tínhamos que suprir era a distribuição de galões de água, cobertores, e lonas de plástico para abrigos. Baseados no que tínhamos visto, também discutimos a possibilidade de oferecer cuidados de saúde mental. E durante os dias que se seguiram, nós continuamos avaliando e confirmando que materiais médicos também haviam sido perdidos. Em Curalipe, pessoas estavam tentando recuperar suprimentos médicos que a água havia levado embora.

No dia 3, nos começamos a reunir um pedido para 5 mil kits de higiene para a população afetada. Nos também começamos a doar remédios em Curalipe.

Como as equipes de MSF se organizaram?
Nós nos dividimos por áreas: uma equipe foi para Constitución e a equipe com a qual eu estava foi mais para o sul, para Curalipe. Então, a parte médica da equipe foi visitar os hospitais e eu fui para os municípios falar com prefeitos, com o ministro da saúde ou com oficiais de desenvolvimento social para tentar determinar o número de casas devastadas e as necessidades. Muitos nos disseram que em algumas vilas, cerca de 70% das casas foram destruídas. Baseados nessas observações, determinados que precisávamos ajudar a população afetada.

Como a situação mudou nos dias depois do terremoto?
Dois ou três dias depois do terremoto, houve uma enorme quantidade de ajuda humanitária. Em Curalipe, num primeiro momento não havia nada, mas depois de alguns dias já havia voluntários médicos no posto de saúde local, recebendo doações. Estes eram sinais de que a área estava começando a fazer uma recuperação rápida.

Na minha opinião, o Chile tem uma capacidade de reconstrução muito boa. Os erros são uma ocorrência normal nos primeiros dias após uma catástrofe de grandes proporções como esta. No entanto, a dimensão desta catástrofe, o número de pessoas afetadas e as casas destruídas é enorme.