Os territórios palestinos vivem há muitos anos uma situação de conflito crônico. Com o sistema de saúde degradado pelos combates e a população sofrendo violações de direitos humanos, as necessidades de assistência médica são crescentes, especialmente na área de saúde mental.
Presente na região desde 1989, MSF começou a oferecer atividades de atendimento psicológico em 1991. A psiquiatra paulista Carla Satie Kamitsuji, retornou recentemente da província de Hebron, na Cisjordânia, onde realizou sua terceira missão como expatriada de MSF. Nesta entrevista ela conta detalhes do projeto e comenta sobre as dificuldades dessa população que diariamente sofre com os efeitos físicos e mentais da violência do conflito.
Como é o projeto de saúde mental nos Territórios Palestinos?
Carla - MSF está nos Territórios Palestinos Ocupados desde 1989 e com atividades de saúde mental desde 1991. Atualmente MSF oferece assistência médica e psicossocial na Faixa de Gaza e Cisjordânia (Hebron e Nablus). O componente de saúde mental é focado no atendimento psicológico, principalmente psicoterapia de curto prazo para vítimas da violência do conflito israelo-palestino e intra-Palestino.
Quais são as principais necessidades dessa população?
Carla – Um sistema de saúde que atenda a demanda da população local – os postos de saúde estão sobrecarregados, com poucos profissionais de saúde; assim a qualidade do atendimento não é muito boa; especialmente em postos de saúde nas áreas remotas. Outra necessidade é o respeito à Declaração Universal dos Direitos Humanos (por exemplo, artigo XIII – liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado; artigo VII -direito, sem qualquer distinção, a igual proteção de lei; artigo IX – ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado).
Mesmo vivendo na Cisjordânia, como suas vidas são afetadas pelo conflito Israel-Palestina?
Carla – Considerando o fato da Cisjordânia fazer parte dos Territórios Palestinos Ocupados, e não de um estado independente, lá os palestinos não têm o status de “cidadão” de um estado com todos os direitos e deveres inerentes para exercício pleno de sua cidadania. Este é um dos principais fatores que afeta a vida dos palestinos, mesmo que na Cisjordânia não haja conflito armado ativo. A presença do exército israelense (Israeli Defense Force), dos postos de controle (check points) e de assentamentos na região afeta a vida dos palestinos direta e/ou indiretamente. Este conflito que já dura mais de seis décadas tem várias nuances de interesses políticos e econômicos com impactos profundos em ambas sociedades (israelense e palestina).
Por exemplo, há três tipos de documentos de identidades para os palestinos:
- “1948 Arabs” (Palestinos que têm documento de identidade Israelense incluindo passaporte)
- documento de identidade que dá direito a Palestinos de se movimentarem
livremente entre Territórios Ocupados Palestinos e Israel, mas não têm direito a passaporte Israelense. Podem viver em território israelense, pagam impostos normalmente, têm acesso ao sistema de saúde israelense.
- documento de identidade palestino que só dá direito de movimentação nos
Territórios Palestinos Ocupados, mas devido à presença de postos de controle, na prática, há rotas em que a movimentação dos portadores desse tipo de identidade é dificultada.
Qual é a abordagem médica para essa população?
Carla - MSF oferece assistência médica e psicossocial às vítimas da violência do conflito israelo-palestino e intra-Palestino. O principal componente do projeto é o de saúde mental. Nas áreas remotas e sem acesso a serviços de saúde devido a bloqueios (Road blocks) e postos de controle, MSF faz monitoramento e oferece assistência médica e psicossocial.
MSF também oferece psicoterapia por um curto período. Como isso funciona?
Carla - MSF oferece psicoterapia de curto prazo (6 a 10 sessões) às vítimas da violência do conflito israelo-palestino e intra-Palestino. Há uma equipe de dois profissionais nacionais que faz a triagem das pessoas que potencialmente necessitam de apoio psicológico e depois encaminha para os MHOs (Mental Health Officers) que podem ser psicólogos ou psiquiatras. Os MHOs fazem a avaliação inicial e decidem se a pessoa se encaixa ou não no perfil para psicoterapia de curto prazo.
MSF está na região desde 1988. Por que essa longa permanência?
Carla - O contexto da região é de conflito crônico. E não há sinais de que a situação melhorará num futuro próximo. O sistema de saúde vigente, assim como a população, também foi afetado pelo conflito e não atende adequadamente às necessidades locais. Além do mais existe um interesse estratégico de MSF em permanecer na região, pois a missão nos Territórios Palestinos Ocupados é “RP” (relações públicas) no mundo árabe.
Houve algum caso que te marcou mais?
Carla - Houve vários casos que me marcaram. Um deles foi o de uma menina de 9 anos que após alguns meses de seguimento (sessões semanais) entendeu o que eu estava falando em inglês mesmo sem entender a língua. Antes mesmo de a intérprete traduzir do inglês para o árabe ela respondeu ou fez comentários. Isso aconteceu pelo menos três vezes em sessões em dias diferentes. Este caso foi uma das diversas experiências que tive que confirmaram o quanto nos comunicamos através da linguagem não verbal.
Você já fez missões em Uganda e no Iraque. O quadro observado na Palestina apresenta alguma semelhança com essas outras regiões?
Carla - Tanto na Palestina, Uganda e Iraque, como na maioria dos lugares do globo, a população mais pobre não tem acesso ou tem um acesso mais restrito aos serviços de saúde.
Como o trabalho de saúde mental é percebido pelos beneficiários?
Carla - A grande maioria dos beneficiários aprecia muito a assistência à saúde mental. Entretanto na população em geral existe ainda o estigma em relação ao que é saúde mental. Muitos associam ajuda psicológica apenas aos “loucos”.
Em um ambiente imerso em tensão constante, como os Territórios Palestinos, o quão importante é o programa psicossocial?
Carla - Como em qualquer outro contexto, uma assistência médica de boa qualidade reflete a definição de saúde da OMS: “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Num contexto de tensão constante há mais fatores estressantes que num contexto calmo, assim a saúde das pessoas está mais vulnerável. Dessa forma, o enfoque no “bio-psico-social” merece uma atenção redobrada na assistência a população exposta a esses fatores estressores.