A Colômbia vive uma situação de conflito armado há cerca de 40 anos. As disputas envolvendo guerrilhas, grupos paramilitares e o Exército colombiano têm consequências diretas na população, que vive amedrontada. O clima de violência eleva os índices de deslocamentos e reduz a quantidade de profissionais dispostos a trabalhar diante das ameaças. O caos gerado afeta especialmente o sistema de saúde, que não consegue dar conta das altas taxas de vítimas do conflito, bem como de violência sexual, outro grande problema no país.
Após seis meses atuando na cidade de Tame, onde esses problemas são frequentes, o engenheiro niteroiense Felipe Buzanovski retorna ao Brasil e fala da sua atuação como logístico de MSF. A organização atua no país há 24 anos e atualmente mantém 14 projetos.
Como era sua rotina de trabalho?
Felipe Buzanovski - MSF tem 14 projetos na Colômbia. MSF Bélgica tem três. Eu estava no mais novo deles, que fica em Tame e é voltado para atenção primária de saúde, saúde mental e saúde sexual e reprodutiva. A gente tinha uma clínica dentro da cidade de Tame e tinha também a nossa clínica móvel, que todo dia ia para as zonas rurais e pequenos vilarejos. Como logístico de terreno, eu era responsável por quase todas as atividades não médicas. Então qualquer problema no projeto cabia à logística resolver. A gente era encarregado de fazer as compras, de cuidar do estoque, de preparar itens para situações de emergência, de cuidar de toda comunicação, inclusive assegurando a segurança da equipe e de cuidar da manutenção dos veículos. Mais para o final do meu período lá, trabalhamos um pouco também com água e saneamento. Enquanto estive lá, não houve tanta necessidade de realizar construções, mas caso houvesse, essa também seria uma função pela qual eu teria responsabilidade.
Quais foram as suas impressões a respeito da situação do país?
Buzanovski - O contexto na Colômbia é bastante complicado, pois o país vive um conflito há mais de 40 anos. A área onde a gente trabalhava é muito estratégica porque tem muito poço de petróleo e é uma área de fronteira com a Venezuela. Há presença de grupos armados e muitas ameaças à população. No próprio sistema de saúde tem muita gente que não quer trabalhar por causa do medo. Então as pessoas têm uma dificuldade no acesso ao sistema de saúde. A gente sempre tinha gente para atender, eram cerca de 1,6 mil atendimentos por mês.
Que dificuldades esse contexto de conflito armado gerava?
Buzanovski - Às vezes tinha um “paro armado”. Era quando os grupos armados diziam: não usem a estrada se não vocês vão sofrer as consequências. Eles interrompiam o movimento entre as cidades. Os militares às vezes faziam caravanas para garantir a segurança, mas normalmente o “paro armado” interrompia todos os movimentos. Depois de um tempo, notávamos até aumento de preços por causa do “paro armado”, e isso prejudicava a população. A gente uma vez teve uma interrupção de atividades. Um dos grupos armados pediu que nós fossemos embora de uma área. Então, por um tempo, a gente teve que suspender as atividades na zona rural. Algumas vezes tinham incidentes na estrada, forçando a gente a retornar e deixar de ir até alguma zona rural.
Como eram as medidas de segurança adotadas pelas equipes de MSF?
Buzanovski – Eu, como logístico, implementava os procedimentos de segurança que o coordenador do projeto criava. A gente tinha toque de recolher, não podia sair de casa depois das 22h nem antes das 5h da manhã, tínhamos sempre que informar para o chefe do projeto a nossa localização, evitar falar sobre situação política ou sobre os conflitos em locais públicos Tinham algumas regras de segurança a serem cumpridas durante as saídas da clínica móvel. Por exemplo, manter contato a cada 30 minutos se estivesse em movimento nas estradas e de hora em hora quando estávamos já no local de atendimento. Além disso, usar material de identificação de maneira clara. Quando a gente estava na zona rural, tinha que deixar muito claro que éramos MSF, não tínhamos nenhuma ligação com grupos ou governos, que nosso trabalho era muito independente, neutro e imparcial. A gente sempre explicava isso assim que chegava nessas áreas.
Quais eram os principais focos de atendimento?
Buzanovski - Tinham muitos casos de grávidas, principalmente adolescentes. Meninas de 12, 13 anos. A gente fez muita campanha para divulgar a necessidade de uma vítima de violência sexual ser atendida em menos de 72h. Tinha um telefone de plantão caso fosse necessário entrar em contato com a gente, para entregarmos kits, evitar transmissão de doenças. A psicóloga também ficava de plantão para se houvesse algum caso. Mas o atendimento psicológico era mais para vítima de conflito. Tinha muito caso de violência sexual, de violência familiar e do conflito mesmo. Uma vez a gente atendeu um zelador da escola onde a gente trabalhava porque a filha dele tinha sido vítima de uma bomba e morreu. Tinha cinco anos. Foi uma bomba colocada em uma bicicleta. E a maioria das doenças que a gente atendia, se eu não me engano, eram de cunho respiratório, dores de cabeça e no corpo, alguns casos de diarreia e hipertensão também. Eu não sou médico, mas às vezes eu lia os relatórios e o que eu lembro são essas coisas
Você já mencionou que o contexto de violência amedrontava funcionários do sistema de saúde, além disso, que outras dificuldades a população enfrentava para ter acesso a cuidados médicos?
Buzanovski - Um problema sério eram os deslocamentos. É uma coisa que faz parte do dia a dia deles há bastante tempo. A Colômbia é um dos países com a maior quantidade de pessoas deslocadas. Mais que a Colômbia só o Sudão atualmente. Isso é algo que se observa mesmo nas cidades. E tem um problema grave na Colômbia em relação ao sistema de saúde porque quando você esta registrado em uma cidade, você não tem acesso ao sistema de saúde de outra. Então, quando você é deslocado é preciso se registrar de novo. A gente tinha uma trabalhadora social para ajudar o pessoal a se registrar e assim ter acesso ao sistema de saúde. As nossas promotoras de saúde tentavam incentivar bastante as pessoas a fazerem isso, mas uma coisa é incentivar a pessoa a ter acesso e outra é o sistema de saúde ter uma estrutura para poder receber essas pessoas. E às vezes tinha a estrutura, mas não tinha pessoal qualificado, ou mesmo profissionais que não trabalhavam por medo do conflito, eram ameaçados, isso tudo prejudicava muito a população. E por essa falta de qualidade, de estrutura, de medicamento, eles preferiam sempre contar com MSF. Além do atendimento uma vez chegamos a ajudar vítimas de deslocamento, que tiveram que abandonar uma cidade por causa de conflito, levando kits de higiene com sabonetes, toalha, etc.
Como MSF atuava em relação às comunidades indígenas?
Buzanovski - A Colômbia tem uma população indígena bastante grande. O departamento onde eu estava, Arauca, tem muitas tribos. Se eu não me engano eram cerca de 5 mil indígenas sendo que 2,5 mil só no município de Tame. Mais para o final do meu período lá, a gente estava implementando um novo tipo de atenção, que consistia em ir até a comunidade indígena para dar o tratamento. Os médicos visitavam todas as casas, davam remédios, faziam a desparasitação das crianças. Depois dessa primeira visita acontecia uma segunda para conferir se eles estavam tomando os remédios. Depois de um mês havia outra visita para ver os resultados. Foi bastante interessante essa aproximação com os indígenas. Nessas visitas as promotoras de saúde tentavam também incentivar a parte de higiene e foi legal porque quando a gente voltou, vimos que eles estavam limpando os baldes, guardando de cabeça para baixo. Foi gratificante.
Qual foi o aprendizado pessoal que você obteve com essa experiência?
Buzanovski - Eu fiquei uma pessoa mais humana. Até então, antes de trabalhar com Médicos Sem Fronteiras, os maiores problemas que aconteciam para mim era um computador parar de funcionar. Hoje, já é uma pessoa com um problema, e isso é uma grande diferença. Eu também nunca tinha sido responsável por supervisionar uma equipe e acho que tive bastante sucesso nisso. O pessoal que trabalhava comigo confiava bastante em mim e consegui deixar o grupo bastante motivado. Uma das coisas que me fez entrar em MSF foi perceber que eu tive tanta oportunidade de estudar, de aprender muita coisa e de me perguntar por que não usar isso em prol de outras pessoas? Quando eu via as pessoas limitadas em conhecimento, queria tentar ajudá-las a crescer. Uma coisa que fiz foi dar aulas de matemática, de Excel. Tentava ensinar tudo que eu podia para o pessoal local que trabalhava no escritório.